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Na Diretoria: construção e invenção

No período em que ocupei a função de diretora geral do Instituto, não sem os colegas que fizeram parte desse percurso, várias perguntas me acompanharam. A cada ano, à medida que os   pontos fundamentais do funcionamento eram retomados, ao mesmo tempo surgiam novos desafios para renovar a fórmula. Era preciso levar em conta os atravessamentos que a psicanálise e os psicanalistas enfrentam. Passamos por inúmeras contingências, como a pandemia e a perda de nosso querido colega Vicente Gaglianone, que na ocasião ocupava a função de diretor de ensino. O que nos norteou e nos fez seguir, foram os conceitos fundamentais da psicanálise e o que ela nos ensinou para transmitir essa posição decidida. Nosso compromisso mobilizou o desejo de cada um da diretoria para que, além do que estava sendo construído, surgisse uma invenção, um manejo para transmitir as dificuldades enfrentadas e para continuar sustentando o funcionamento. Este foi um desafio constante. O desafio de, a cada semestre, estarmos atentos o suficiente para que o funcionamento não se acomode, não se restrinja. Sabemos com Lacan que não existe uma fórmula para apreender o real em jogo na clínica. Portanto, esse modo de trabalhar implica um esforço de atualização e reinvenção constante. Os conceitos teóricos utilizados não têm como dar acesso direto ao saber fazer na clínica. Eles servem para não nos perdermos no caminho e mesmo que seja um mapa impreciso ele não poderá deixar de ser consultado.

Lacan, no seu texto “A psicanálise e seu ensino”, deixa uma ambiguidade, que é muito profícua e que nos orientou em vários momentos: a psicanálise ensina ou é ensinada? No Instituto essa pergunta nos fez trabalhar ao modo de uma báscula. Ela ensina, porque é como analisante que os analistas da Escola assumem seus cursos, e é ensinada na medida em que cada um que recebe os conceitos ensinados só poderá apreendê-los se der algo de si. Nessa formulação há um desordenamento no modo tradicional de ensino, separando-o da pedagogia.

Para a psicanálise de orientação lacaniana nunca estamos em harmonia com nossa natureza – nesse sentido, não há cura. Essa falha, esse tropeço da estrutura, será a resposta de cada um com o sintoma. Estamos sempre isolados daquilo que consideramos nosso complemento. Essa experiência é o percurso de uma análise, mas, de certa maneira, está presente no ensino e na transmissão. Como vai se dar, para cada um, o retorno desse desajuste sobre o saber? Não temos um consenso, uma visada final, a questão é como cada um irá recolher a defasagem entre o conforto da compreensão, que desfaz a harmonia, e como poderá retomar esse efeito em outro momento. É dessa experiência de um furo no saber, que poderá emergir um efeito de transmissão da psicanálise. Portanto, quem ensina é efeito do ensino, e quem aprende também.

O desejo de saber é singular, não tem um padrão, um standard que possa servir de medida. Um ensino vivo, em que esses aspectos estão enodados como motor do trabalho, foi nossa aposta sempre renovada no Instituto. Os analistas da Escola sustentam essa experiência de transmissão no Instituto, dando provas de como cada um se arranjou com esse ponto sintomático, irredutível ao universal. Que o Instituto seja um lugar onde cada um possa extrair as melhores consequências em relação ao ensino de Freud e de Lacan, que sirva como referência operatória na clínica que cada um sustenta, foi nosso desejo.

Portanto, entre os inúmeros aprendizados que obtive para minha formação, talvez o principal tenha sido aquilo que para mim é o agalma do ICP: a diversidade das atividades propostas visando fazer o nó entre a clínica, o episteme e a política, associada a sua vocação para pesquisa clínica. A pesquisa clínica é o quarto elemento que amarra e possibilita que a diversidade não caia na dispersão.

Agradeço muito aos colegas que estiveram comigo nesse percurso e colaboraram para que eu pudesse extrair consequências dessa experiência. São eles: Tatiane Grova, Vicente Gaglianone, Ruth Cohen, José Marcos Moura, Maria Antunes Tavares e Glória Maron.

 

Paula Borsoi
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