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Por que um Instituto de ensino e pesquisa? O que ensinamos?

Introdução

 Seguindo nossa aposta em fazer deste número de Arquivos da Biblioteca um exercício de demonstração do enodamento que sustentamos, e que de certo modo também nos sustenta, deci-dimos publicar a aula inaugural do Instituto de Clínica Psica-nalítica (ICP), ocorrida no início do ano de 2019. A abertura dos trabalhos foi ocasião de uma conversação entre colegas da Seção Rio que já sustentaram o lugar de direção do Instituto e da atual diretoria, além, é claro, da participação de alunos recém-chegados, ou não, cujas interrogações muito contribuí-ram para a realização da conversação.

Como tentar transmitir o vivo de um encontro que tomou como desafio interrogar a própria existência do Instituto, a partir de seus pontos de junção e disjunção com a Escola, na perspectiva de sua lógica e de sua função? Decidimos tentar fazer valer a intensidade do que foi o encontro. Optamos por recriar, a partir de certo arranjo das falas transcritas, a atmosfera de invenção coletiva que permitiu tocar em questões precisas e, ainda, iluminar pontos cruciais em torno daquilo que se passa entre o Instituto e a Escola.

Por que o Instituto?

Romildo do Rêgo Barros – Eu queria agradecer a Paula Borsoi e a Glória Maron pela ideia de fazer esse encontro completamente diferente do que se costuma chamar de uma aula inaugural. Mas me parece que é interessante para que as pessoas que estão entrando no Instituto de Clínica Psicanalítica da Escola Brasi-leira de Psicanálise – Seção Rio de Janeiro possam assumi-lo como seu.

Quem conhece um pouquinho da história das instituições de psicanálise, sabe que a invenção do termo “instituto” não é nossa. Em 1920, em Berlim, Max Eitington, apoiado por Karl Abraham, criou o Instituto de Berlim, que tinha, como têm até hoje os institutos da Internacional Psychoanalytical Institu-tion (IPA), a função de formar psicanalistas. Então, havia uma prática clínica e a supervisão dessa prática, com a função de formar psicanalistas. A gente, o Campo freudiano e o movi-mento lacaniano em geral, não pode dizer que os psicanalistas são formados pelo Instituto. Se tivéssemos que usar essa expres-são, faríamos referência com muito mais facilidade à Escola do que ao Instituto. Então, cabe a pergunta “para quê?”, que, aliás, foi a pergunta que nós recebemos. Não sei se é literal, mas a pergunta é mais ou menos esta: “Para que serve o Instituto, por que essa invenção?”.

Os Institutos no Brasil têm datas diferentes de criação. O do Rio de Janeiro foi criado no Encontro de Barcelona, em 1998, mas na verdade foi fundado algum tempo depois e o seu curso passou a funcionar alguns meses após isso. Mas, enfim, há uma particularidade que vocês logo vão notar: no Instituto de Clí-nica Psicanalítica (ICP) – este nome foi proposto em Barcelona por nossa colega Heloisa Caldas –, os núcleos de pesquisa são fundamentais. Eles inclusive surgiram antes do Instituto. Mes-mo antes da Escola, já havia núcleos de pesquisa de crianças, de medicina etc. Hoje, há novos núcleos, que na época não exis-tiam. Mas digamos que a ideia de núcleo de pesquisa em psica-nálise antecedeu a criação de um órgão como o Instituto, que visa justamente a esse tipo de prática de pesquisa, por exemplo, em Direito, em psicanálise com crianças etc.

Então, estou chamando a atenção para isso, a fim de perce-bermos o que inspirou a criação dos Institutos ligados à Escola Brasileira de Psicanálise (EBP). O Instituto visa a um estudo bem mais direto do que a Escola, que, com a criação do Ins-tituto, pode dedicar-se ao que é essencial em uma Escola de psicanálise: basicamente, os cartéis e o passe.

Paula Borsoi – Para que o Instituto? Para que serve? Ele não é linear, ele está sempre em movimento, ele está sempre se mo-dificando.

Mas o ensino tem várias formas de se apresentar. Tem um curso, que tem começo, meio e fim; tem os núcleos de pes-quisa, que a cada ano renovam os seus temas de pesquisa; tem as primeiras lições; quer dizer, há várias maneiras de abordar esses conceitos e entrar no estudo da psicanálise de forma bem diferente de um curso de especialização mais universitário. Isso faz certa diferença em relação ao trabalho da Escola, no sentido de que, no trabalho da Escola, a formação do analista lacaniano é permanente. Mas ela é permanente não porque é infinita, porque não acaba nunca, e sim porque ela tem uma permanência, quer dizer, tem alguma coisa que permanece na formação do analista, que é justamente o que é impossível de se concluir, de se completar.

O Instituto, como curso, oferece a aparência de que as coisas se darão em certa ordem, com aulas mais estabelecidas – e é assim mesmo, há aulas, núcleos etc. –, mas é preciso essa dispo-sição, essa disponibilidade, para poder enfrentar, dar de si para poder encontrar alguma coisa que não é só o professor que vai ensinar. Enfim, tem toda uma leitura que cada um vai ter que encontrar o modo de fazer.

Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros – O ensino no Instituto tem como referência um movimento mais amplo de trans-missão da psicanálise sustentado pela Escola. O Outro do Instituto é a Escola e isso marca o estilo de ensino que se faz no ICP e que se orienta pela abordagem dos conceitos nos vários momentos de sua construção. Os conceitos da psica-nálise foram feitos para apreender alguma coisa que escapava, que escapava à ciência, que escapava aos médicos. Freud fez a descoberta do inconsciente ao lidar com esses fenômenos que surpreendiam o saber da época. Algo acontecia com as histéricas que Freud pôde acolher como enigma, o que lhe permitiu ter acesso, na causalidade psíquica, àquilo que f ica fora da lógica da causa e efeito. A causalidade psíquica leva em conta a contingência do encontro, a forma como certas experiências foram vividas. Na causalidade psíquica, nada é direto, linear, há o inconsciente.

Freud lançou o inconsciente, o que orienta até hoje a psica-nálise. Nunca vai haver uma psicanálise sem o inconsciente, sem uma pergunta sobre o inconsciente, mas o conceito do incons-ciente vai se atualizando. Lacan demonstrou, apreendeu o in-consciente de várias maneiras: o inconsciente estruturado como uma linguagem, o inconsciente como saber não sabido. E tam-bém o inconsciente como ponto cego, no qual se experimenta algo sem poder decifrá-lo. O conceito do inconsciente segue por um caminho tortuoso e Lacan chega, no final de seu ensino, a lhe dar a dimensão de um tropeço. O inconsciente não como letra morta, mas na dimensão viva de um tropeço, contingente, imprevisível, inesperado. É assim que o encontramos na experi-ência de uma análise. Convido vocês a entrarem nessa perspecti-va do conceito em psicanálise, que não é absoluto, nem fixo, mas em permanente movimento.

Eu gostaria de sublinhar dois pontos importantes do ensino da psicanálise no ICP: a subversão da relação causa-efeito a par-tir do inconsciente e o efeito da incidência da palavra sobre o sujeito, sobre o corpo. Duas dimensões fundamentais na prática da psicanálise. Que possamos ter tempo e coragem para apren-der um conceito em movimento.

Na minha experiência de diretora, na diretoria passada, eu sentia a angústia dos alunos em relação à aprendizagem dos con-ceitos. São muitas variáveis, é muito complexo, são muitas lei-turas, diziam eles, o que se chocava com uma necessidade de dominar o conceito, de dizer: “Agora sim, peguei”, “Agora sim, entendi”, “objeto a é isto”, “sujeito é isto”. E quando dizemos que há movimento na elaboração do conceito, que é preciso con-textualizar a cada vez, isso angustia os alunos. Muitas vezes, eles já vêm com um saber prévio da universidade, de alguma leitura, e querem que aquilo coincida com o conceito que está sendo transmitido. O Instituto é um lugar para fazer alguma coisa com essa angústia, para não permanecer paralisado diante dela e po-der, a partir dela, colocar o já sabido em questão, em movimento. Apreender o conceito em seu movimento é também saber de seu limite, que se encontra nas surpresas da própria experiência.

Marcus André Vieira – Os cursos aqui não são pensados com pré-requisitos, você só pode galgar certo andar depois que cumprir tais e tais coisas. Na vida concreta isso funciona, claro que sim. Eu não quero um dentista que fale isso que eu estou falando. Mas na psicanálise é o contrário. Se a gente aplicar a lógica do dentista na psicanálise, funciona mal. Eu não confio nessa pessoa que chega e fala que fez tantos cursos, então sabe como operar o meu ego.

Nós consideramos que fazemos parte de um movimento de trabalho, é mais do que adquirirmos algumas competências que vamos exercer por aí mediante alguns diplomas. Então, a ideia é que seja uma experiência fazer esse curso, e que essa experiên-cia traga um pouco para vocês do que é a experiência de uma análise, e a experiência de uma análise envolvendo o que nela diz respeito a um saber ou a algum conhecimento.

Romildo do Rêgo Barros – Quer dizer, para que serve em última instância o Instituto? Não é para formar psicanalistas, mas é para formar pessoas que vão trabalhar na Escola. A formação do psicanalista é uma emanação da Escola – se eu posso usar esse termo – e o Instituto é um dos lugares, talvez até o mais im-portante fora da Escola, que faz com que as grandes discussões do mundo da psicanálise, do mundo da Associação Mundial de Psicanálise (AMP), possam circular e produzir efeitos. A voca-ção natural do Instituto é a Escola.

A formação entre a Escola, o Instituto e o divã

Glória Maron – Chegou aqui uma pergunta bem interessante, que toca numa questão que sempre nos é dirigida sobre a formação do analista: o que é a formação do analista? O ICP forma analis-tas? Qual a diferença da formação do ICP? O que é o ICP?

Romildo do Rêgo Barros – Eu tenho a impressão – e é verdade que essa pergunta aparece sempre – de que a expressão “for-mação do analista” é muito antiga e com o tempo ela vai sendo mais repetida do que tendo algum sentido. Me parece que a gente sempre partiu do ensino de Lacan, sempre partiu da ideia de que analista é aquele cuja análise resultou em um analista. Então, é a partir desse tronco que se pode discutir a expressão “formação do analista”. E isso é muito mais importante do que saber onde os analistas se formam.

A única maneira de responder onde se forma o analista seria esta: no divã. É aí que o analista se forma. E é interessante que cada analista saiba qual foi – foi para isso que Lacan inventou o passe – a virada, o momento crítico que se deu quando ele se sentiu disposto a se autorizar analista. Então, é claro que toda a moldura institucional coopera com isso, mas existe um momento, que é completamente singular a cada um, em que a ideia de funcionar como analista aparece quase – eu diria – como uma escolha forçada, no sentido de que você não faria outra coisa senão isso.

Então, temos que distinguir, e isto é uma coisa que cer-tamente vai interessar nas aulas do ICP, entre o desejo de ser analista e o que Lacan chamou de o desejo do analista. O desejo de ser analista é como o desejo de ser astronauta ou jogador de futebol. Não tem muita singularidade. O desejo de ser analista é que você sabe um pouco de onde veio essa ideia. Enquanto o desejo do analista é uma coisa que se impõe e não se pode dizer que seja exatamente um desejo subjetivo. Então, me parece que é nesse intervalo, nesse meio aí, que se pode discutir a questão da formação do analista. Lacan disse uma vez que nunca falou em formação do analista, sempre falou em formação do inconsciente.

Marcus André Vieira – Eu não sei como falar mais disso, pois o Romildo já falou. Talvez, quer dizer, primeiro marcar o im-pacto de estarmos aqui, numa instituição que é lacaniana, de marcar o impacto de Lacan nessa discussão. Você aprende tan-to, estuda tanto, mais ou menos como faz um médico, como se faz às vezes também numa universidade, quando você vai fazer uma tese e, depois, pronto, você ganhou seu diploma. A formação envolve um credenciamento. O que Lacan quis fazer foi bagunçar isso tudo e dizer que se a formação do ana-lista for apenas um credenciamento a mais, não tem nada na psicanálise de diferente dos outros. Talvez uma especificidade, ela seja só uma especialidade. Mas não, é muito maior quando a gente quer mexer com o singular.

A gente quer fazer uma terapia mexendo com aquilo que é o mais indizível em cada um; ela não pode ser credenciamento. Essa foi uma das razões que tentei apresentar, porque esse tal in-dizível não se dirá. Então, eu não vou poder dizer: “Olha aqui, eu extraí o indizível do sujeito”. Vai ser dito meio de lado, meio sem jeito, a própria pessoa é quem vai dizer, numa reunião, o desejo dela de um jeito, que ela sabe que não é bem isso, mas é também. E, nessa hora, que ela sai com um saber, a gente que está do outro lado parece ter uma experiência de parturição, do trabalho mesmo de parteira, que é a via para que essas coisas aconteçam.

Então, Lacan carregou muito na ideia de que não há forma-ção no sentido de credenciamento. E muito na ideia de que teria um atravessar de várias experiências, numa espécie de for-mação contínua. É por isso que a ideia de ter o diploma, que dará autorização para você trabalhar, não existe para a gente. E por isso mesmo lutamos contra a regulamentação da psicaná-lise, porque seria isto: “Agora você tem o diploma, está regula-mentado”. E não é assim. Ou você vai exercer como psicólogo pelo Ministério da Saúde, ou como médico, ou como astrólogo, mas como psicanalista, exceto algumas situações específicas de prefeituras, você não tem a profissão. Então, o que a gente pro-põe é que aqueles que vão exercer a psicanálise ganhem aqui uma parte dessa coisa que o Romildo chamou de chegar perto do seu desejo, de algum desejo de ouvir o singular. E, para isso, precisa de conceitos e ferramentas, precisa de uma série de coisas. Acho que é isso.

Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros – Essa formação do ana-lista como saber analítico tem um preço. Lacan costumava falar desse preço. E esse preço não é uma mensalidade que a gente paga aqui ou ali, mas é o preço dessa desarrumação que pro-voca o encontro com o inconsciente, o encontro com a psica-nálise. Eu acho que o Instituto é um lugar assim, onde a gente tem que estar disposto a certa desarrumação, a certa subversão e, ao mesmo tempo, não é para angustiar, nem desorientar; ao contrário, é para se reorientar a partir de outras bases. E isso não sem a experiência de sua própria análise, na qual o desejo do analista pode surgir.

Glória Maron – Recebemos também um conjunto de questões que tocam na articulação e na diferença entre Instituto e Escola. Uma das perguntas diz: “Falamos da escolha pelo Instituto, mas por que uma Escola?”, assinalando que essa diferença é confusa. O que então é o Instituto e o que é a Escola? Outra questão que nos foi enviada se interroga: “A aula é no Instituto, mas a formação é na Escola?”.

Marcus André Vieira – Se você chegou aqui, se tem alguém aqui que chegou e não está muito familiarizado com o nosso fun-cionamento, que é grande, EBP, AMP… Tem muita gente no mundo, tem muita gente no Brasil, tem certo número no Rio. E quem não está muito familiarizado e está achando que a gen-te é meio diferente, nada muito pé no chão… Lacan é cem vezes pior! E na época em que ele vivia, também. Ele era contra um controle já muito estruturado, já muito obsessivo, que ainda existe e é o que a gente chama de “ortodoxo”. Ele lutou contra isso, ele tinha o jeito dele, lutando contra isso. E, em sua época, pensou as instituições de psicanálise de maneira muito aberta, muito subversiva. A formação do analista é dele próprio, mas ao mesmo tempo em um dispositivo de instituição.

Em algum momento, essa nossa comunidade, que tem uma figura de proa, que é Jacques-Alain Miller, pensou que valeria a pena, ao lado dessa instituição, o Instituto. A Escola é a insti-tuição dos analistas, na qual, em princípio, você vai participar de eventos, trocar ideias, conversar, discutir, ouvir sobre as aná-lises que as pessoas que as concluíram querem transmitir, que é o passe, e participar de grupos de trabalho, que são os cartéis. Isso seria a formação para o analista. Não precisava mais. A Es-cola tem uma atividade que é de leitura e discussão a partir dos livros de Miller. São atividades abertas, tem o dia para isso, tem o dia da discussão clínica, tem o dia para a discussão a partir do passe, que é esse dispositivo que faz com que alguém fale como conseguiu dizer do seu singular para outros. Os encontros são contínuos. As atividades são abertas, quem chega pode entrar, mesmo que caia de paraquedas. No Instituto não, a ideia é pe-gar pela mão e dar aulas. Só que a gente não consegue apresen-tar isso a não ser dizendo: “É, mas não é bem assim”. Pensou-se que valeria a pena fazer isso de braços dados com uma institui-ção onde o ensino fosse um pouco mais sistematizado do que na Escola, e é este o Instituto.

Lacan não fez institutos, ele era contra os institutos, que eram muito rígidos, onde tudo era esquematizado. Era essa a ideia na época, e ele era contra toda essa ideia. Ele queria fazer uma democratização geral, não era preciso diploma, e assim foi. Mas depois de certo tempo, quando essa comunidade foi andando, achou-se que valia a pena localizar o Instituto. Então, o Instituto é a perna mais sistematizada. E nessa mesma casa funcionam as duas coisas em horários diferentes: a Escola e o Instituto. São dois conceitos diferentes mesmo.

Paula Borsoi – É, há várias entradas, eu acho, e várias formas de aproximação com a Escola. E um órgão básico da Escola é o cartel. Vocês veem que aí tem um quadro dos cartéis, onde já tem cartéis formados ou “procuram-se cartéis”. É uma das formas, por exemplo, de se inscrever na Escola, uma forma de aproximação. A inscrição na Escola, então, tem muitas modali-dades. O cartel até hoje é uma entrada muito importante. Tem as Jornadas também. O próprio Instituto é uma maneira de aproximação com a Escola.

Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros – O cartel pode fun-cionar como uma dobradiça Escola-Instituto. No Instituto, te-mos os cursos, as aulas; na Escola, temos outros dispositivos de trabalho, que mantêm aberta a questão do que é um analista. O cartel pode ser um lugar onde levar suas questões e trabalhá-las na interlocução com outros colegas. Não estar só na leitura de textos difíceis.

Romildo do Rêgo Barros – Eu tenho a impressão de que existe aí uma questão. Durante muitos anos, eu participei diretamente da luta contra a regulamentação da psicanálise, como repre-sentante da EBP na Articulação das Entidades Psicanalíticas Brasileiras, e fui aos poucos entendendo que, mesmo sendo o exercício legal da psicanálise completamente regulamentado, a psicanálise não é regulamentável. Então, esta é a dificuldade, mas é ao mesmo tempo o espaço de liberdade que têm os psi-canalistas: eles saberão que aquilo que realmente interessa vai escapar inclusive às Escolas e aos Institutos.

Digamos que a experiência do inconsciente é muito singular, e a primeira coisa – não a única, claro – que uma instituição pode fazer é não atrapalhar, não se pôr no lugar da emergência do inconsciente. Esta era, me parece, a crítica que Lacan fazia à tendência obsessiva da Internacional, na qual o psicanalista é produto de uma regulamentação, mesmo se interna, não esta-tal. A gente tenta, é difícil, mas tenta deixar aberto um ponto de fuga que faça com que o que realmente interessa escape de qualquer regulamentação, mesmo que o exercício da psicanáli-se seja regulamentado.

Se amanhã – o que não é impossível – o governo brasileiro fizer uma lei sobre como se formam os analistas – e desde os anos 1950 e 1960 já houve pelo menos uma dezena de projetos de lei no parlamento que propuseram sua regulamentação –, a psicanálise evidentemente pode se acabar. Mas se ela permane-ce como exercício, o inconsciente, o objeto da psicanálise, vai se manifestar sempre, independentemente da regulamentação. Isso me parece importante que a gente tenha na cabeça. Isso é mais importante do que a simples oposição à regulamenta-ção. Mesmo que haja regulamentação, se a civilização permite que haja inconsciente, é porque em algum momento houve um ponto de fuga, um buraco, um vazamento nas regulamentações que permitiu que o inconsciente não só existisse, como pudesse ser operado.

Paula Borsoi – O Romildo trouxe muito bem essa questão do ponto de fuga, porque justamente essa pergunta sobre o que é o analista é que é o coração da Escola, que é o coração da for-mação do analista. Essa não é uma pergunta que se responda. Ela insiste como pergunta. Então, é por isso, por que a Escola? Porque não tem Instituto sem Escola. É a Escola que sustenta o Instituto. O Marcus lembrou muito bem, não foi Lacan, que era contra os institutos, foi Miller quem, em determinado mo-mento, percebeu que a função de ter essas duas entradas é im-portante. O Instituto não tem como se sustentar sem a Escola.

Marcus André Vieira – É difícil a gente sair dessa. É horrível, por-que a gente aqui começa a adorar esse papel de subversivos. Por exemplo, todo mundo fala: “Eu só posso ler Lacan depois que eu terminar de ler todo Freud”. E não tem nada a ver. Os dois são supercomplexos falando da mesma coisa. Lacan fala após Freud, ele fala a partir de Freud. OK, então, vamos ler Freud. Mas não é assim, como se só depois que eu entender tudo de uma coisa é que poderei passar para o próximo andar. Não tem muito essa ideia, mas é uma formação contínua, a gente está sempre apren-dendo alguma coisa porque o nosso objeto é mutante.

Glória Maron – Mais uma pergunta: “O que é ser membro da Escola?”

Romildo do Rêgo Barros – A Escola é uma instituição, um grupa-mento legal, que tem seus membros como qualquer outra asso-ciação. E eu acho que tem uma pergunta no fundo, que é como se chega a ser membro da Escola. Me parece que o mais importante é se tornar membro no momento em que isso implique uma adesão de uma outra qualidade, tanto na Escola quanto na psicanálise. Nem sempre dá para fotografar esse momento. Às vezes, por sorte dá, mas de fato é um acontecimento bem feliz.

O membro é alguém que se oferece, ou que pede para ser membro, e o Conselho do Rio de Janeiro, o Conselho do Bra-sil e o Conselho da AMP vão julgar esse pedido ou essa oferta, que é uma escolha dos dois, e o sujeito recebe a resposta sim ou não. Ele pode tentar no ano seguinte, ou em dois, três anos. O importante é que esse pedido se dê no momento em que o sujeito percebeu que a adesão dele à Escola já não é mais a mes-ma de um mês atrás. Houve qualquer coisa que implicou em uma mudança na vida e na participação dele.

É evidente, porque o membro da Escola é como um membro de qualquer coisa, de qualquer associação, salvaguardadas as dife-renças, porque a Escola cuida de alguma coisa que não é perfei-tamente regulamentada, que é a psicanálise. Inclusive, eu estava notando aqui como isso faz com que a discussão tenha certa ten-dência a recusar as perguntas muito diretas. Em geral, são boas as perguntas diretas. O que é ser membro da Escola? Essa é uma boa pergunta. Mas aí você fica meio sem saber como responder, porque o importante ainda não é o pertencimento do sujeito a um quadro associativo, apesar de que, sem isso, não há Escola.

A gente tem que pegar esse paradoxo e tentar não achatá-lo ou negar que existe, tem que levar adiante como paradoxo. Não é todo dia que se tem um paradoxo parecido com esse.

Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros – O interessante é que o Instituto não tem membros. A Escola tem, mas o Instituto não se compõe de membros, e sim de associados.

O vivo entre o que se ensina e o que se aprende

Marcus André Vieira – Como ensinar o que uma análise envolve em termos de aprendizagem? E como ensinar alguém a ocupar esse lugar do analista? São coisas sempre complicadas e parado-xais. Não porque a coisa é complexa, é fácil dizer que é muito complexa, para ficar parecendo que você tem que fazer mestra-do, doutorado, três pós-graduações, e não é bem isso. É a com-plexidade específica da coisa. Por um lado, uma análise, quer dizer, aprender a estar no lugar do analista, envolve alguma coisa como o aprendizado de uma prática. Então, sei lá, como pilotar avião, por exemplo: você vai fazer tantas horas de voo, vai fazer aulas teóricas para ver como funciona a coisa e, depois de certo tempo, você sabe fazer. Não é errado, faz parte, e um dos aspectos do aprendizado da psicanálise é esse. Mas a expe-riência da psicanálise, especificamente, difere da pilotagem de aviões porque o avião, apesar de ele ser muito complexo, é mais ou menos sempre o mesmo. Você pode mudar o modelo, mas ele vai se comportar estavelmente, desde que você faça as ma-nipulações corretas. A gente olha para aquela coisa dos grandes aviões e acha que aquilo é uma loucura, mas não é.

No nosso caso, o nosso objeto é subjetivo, o objeto “gente”. E gente que a gente na psicanálise exige tratar como gente, e não como um ratinho. Porque a gente pode pegar um ser hu-mano e olhar apenas seus aspectos, digamos, de máquina ou de animal. E ele é a máquina e o animal, mas tem umas partes que não são. É com isso que a gente quer trabalhar. Então, cria-se uma dificuldade. Você pode fazer tantas horas de voo, você pode ficar bom em uma prática, mas o objeto muda. Mesmo uma pessoa muda de uma hora para outra; a mesma pessoa traz um material que não é esperado.

Vamos supor, por exemplo, valendo-nos de uma definição muito simplificada, que a prática do analista seja aquela de fazer alguém se surpreender consigo mesmo. Fazer alguém se surpre-ender consigo mesmo, se surpreender com um fragmento de memória recalcada, e isso levá-lo a algum tipo de mudança. Se isso é a prática do analista, isso vai assumir diferentes formas, e a cada vez diferentes entre si, o que faz com que para nós apenas horas de voo e conhecimento teórico não sejam o bastante. En-tão, como ensinar isso que é um pouco improvisar ou, digamos, uma coisa que parece ser de cada um?

É um paradoxo próprio do ensino da psicanálise. A gente pode até avançar um pouco mais, perguntando-nos como fazer uma ciência do singular. Como dar aula teórica de uma coisa que a cada vez é outra? A gente pode falar que tem que esquecer tudo o que aprendeu com outros pacientes a cada vez que a gente encontra um novo. É uma dificuldade própria nesse ciclo. E é isso que faz com que a gente tenha a missão de fazer o ensino adaptado a esse paradoxo da singularidade. Se a gente quer tratar de alguma coisa que é muito singular, e que é diferente para cada um e é diferente inclusive para a própria pessoa, da maneira como se apresentam suas intimidades mais estranhas, a gente não pode apenas se contentar com o curso teórico e as horas de voo. A gente tenta fazer aqui um ensino que jogue com esse paradoxo. Para terminar, esse ensino que joga com esse paradoxo en-volve a experiência de uma análise, envolve aulas, envolve pe-gar algumas coisas, mas esses conceitos que você vai pegar, se o objeto é instável, depende da maneira como você chega nele. Em termos de conceito, ele vai agir de outra maneira. O con-ceito deixa de ser apenas uma maneira de entender o objeto. É uma maneira de interagir com ele. Um exemplo: o conceito de sujeito. Se a gente acha que sujeito é mais ou menos igual a subjetividade, sei lá, meu lado sujeito, meu lado subjetivo, mi-nha alma, a minha maneira de ser, essas coisas que a gente co-nhece, é um jeito de lidar. Eu digo “o sujeito chegou e sentou”, e eu quero entender a subjetividade dele, então eu vou entrar numa espécie de grande área pantanosa e vou ficar lá dentro. Se você pega o sujeito e pensa como Lacan propõe, que o sujei-to é exatamente aquele ponto cego seu, não toda a sua subjeti-vidade, a subjetividade é o que você pode saber de você. Tem sempre um ponto que você não sabe e esse ponto se apresenta como não saber. Se sujeito é isso, você trata diferente um ponto, você está diferente em um ponto. Você está procurando o pon-to cego, você não está procurando fazer um mapeamento da subjetividade. Só dei esse exemplo para mostrar que o conceito é uma ferramenta. Quando o objeto é essencialmente subjetivo e singular, os conceitos são ferramentas, e a gente tenta passar isso no Instituto, e por isso a gente acha que há uma especifi-cidade no ensino da psicanálise em uma instituição lacaniana, diferentemente da universidade.

Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros – Marcus colocou a ques-tão do ensino, a questão do que se ensina, mas há esta outra pergunta: o que se aprende? Entre o que se ensina e o que se aprende tem um espaço. Vai depender da implicação do traba-lho de cada um. Nesse espaço se tornam necessárias a análise e a supervisão. O que se ensina e o que se aprende na psicanálise não vão sem a sua própria experiência de análise e supervisão. E todo um trabalho com os conceitos.

Quando eu digo essas coisas, eu afirmo que a psicanálise é uma pesquisa, pois você está sempre, como o Marcus falou, tendo de lidar com o novo, construir a partir do novo. E é por isso que os conceitos mudam. E aí eu queria trazer uma frase de Lacan de um texto dele que se chama “A psicanálise. Razão de um fracasso”, em que diz: “Quando a psicanálise houver depos-to as armas diante dos impasses crescentes de nossa civilização (mal-estar que Freud pressentia) é que serão retomadas – por quem? – as indicações de meus Escritos”.2 Então, por quem?

2 Lacan, J. “A psicanálise. Razão de um fracasso” (1967). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003, p. 349.

Nós aqui no Instituto estamos entre aqueles que retomam os Escritos de Lacan. Para retirar o que deles? Eu diria que é para extrair, do seu movimento na construção dos conceitos, o in-consciente como uma saída subjetiva e não como o implacável de uma determinação. E também para resgatar a função da pa-lavra e da linguagem, e retomar o fio que o leva a pensar de forma nova a incidência da palavra sobre o corpo e seu efeito de sujeito. Eu acho que é por aí. Mas a pergunta continua.

Paula Borsoi – No passado, a gente fez um evento na Uerj cha-mado “Como falar de coisas que não existem”. E, pensando no ensino, hoje a gente poderia perguntar como ensinar o que não se ensina, o impossível de ensinar. Mas o fato é que tem algo que se movimenta, como o Marcus fala tanto aqui. Tem entrevista, tem o curso estruturado, organizado. Se você pensar no Campo freudiano e na AMP, que é tanto uma rede hie-rárquica quanto um entrecruzamento de várias redes, que são horizontais, de pesquisa, de estudo, então tem muita coisa viva acontecendo.


1 Aula inaugural do Instituto de Clínica Psicanalítica (ICP) da Escola Bra-sileira de Psicanálise – Seção Rio de Janeiro, ocorrida em 20 de fevereiro de 2019, sob a coordenação de Paula Borsoi, atual diretora do ICP, Glória Maron, coordenadora de ensino, e Tatiane Grova, coordenadora da comis-são de publicação, tendo como convidados os ex-diretores do ICP Romil-do do Rêgo Barros, Marcus André Vieira e Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros. Esse texto só se tornou possível a partir do dedicado trabalho de transcrição realizado por Ricardo Freitas e de sua primeira versão, esta-belecida por Cecília Moraes e Ana Luísa Rajo, da comissão de publicação do ICP. Versão final estabelecida por Andrea Vilanova, Heloisa Shima-bukuro, Maria Corrêa de Oliveira e Marina Morena Torres.
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