Skip to content

Algumas palavras sobre nossa passagem pela Diretoria do ICP-RJ

A convite da atual diretora do Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro, Maria Silvia Hanna, registro aqui alguns momentos dos 4 anos em que passei pela direção do Instituto.

O convite do Conselho para assumir a direção do ICP em 2021, foi uma surpresa, uma alegria e uma enorme responsabilidade: a de levar adiante o trabalho construído pelas direções anteriores. Seria necessário aprender a arte de sustentar o ensino e a transmissão da psicanálise de orientação lacaniana, bem como a pesquisa nesse campo, mantendo viva, intensa e atuante a participação da psicanálise na cidade. Tudo isso no melhor espírito de cooperação entre todos. Creio que o apoio dos colegas, das Diretorias da Seção Rio com quem compartilhamos o tempo da gestão, e, muito especialmente das colegas de diretoria do Instituto foi fundamental para a sustentação deste trabalho que considero ter rendido bons frutos. Isabel do Rêgo Barros Duarte na Diretoria de Tesouraria e Secretaria, Maria Silvia Hanna na Coordenação do Ensino,  Angela Bernardes na Coordenação de Núcleos de Pesquisa, e  Leonardo Lopes Miranda e Paula Legey , na Coordenação de Mídias, Divulgação e Publicações, cada um deles por dois anos, foram todos incansáveis no trabalho realizado.

Um aspecto relevante do trabalho da diretoria foi a manutenção de dois cartéis (com duração de dois anos cada) onde o trabalho epistêmico de orientação pôde se desenvolver. Nos primeiros dois anos a questão trabalhada foi: “qual o saber que conta no ensino e na transmissão da psicanálise?” e Marcus André Vieira foi o mais- um desse cartel. Nos dois anos finais o cartel teve como mais-um Romildo do Rêgo Barros e a questão trabalhada foi: “a psicanálise, o que ela nos ensina…Como ensiná-lo?”. Parte do produto destes trabalhos se encontra no livro publicado ao final dessa gestão, pela coleção Andamento: O Saber que Resta. Ensino, pesquisa e transmissão no ICP-RJ.

Lacan, no início de sua conferência “Lugar, origem e fim de meu ensino” afirma não pensar em entregar seu ensino “sob a forma de um comprimido”. Tal ensino não se resume. Não cabe nos manuais. É um campo aberto por Freud numa topologia de borda com a ciência de seu tempo, mas cuja continuidade depende de como a função do psicanalista vai se inscrever para cada um que a sustenta, o que não se dá sem uma espécie de precipitação. Lemos essa precipitação como um modo de chegar, antes mesmo que se saiba como se chegou ali. O que, por outro lado, não nos libera da responsabilidade pelo ato de aí estarmos. Responsabilidade que se verifica na análise pessoal e na supervisão de cada praticante. Nesse sentido, nosso percurso foi não-todo calculado, estando aberto às contingências e, portanto, às alterações de rota. Mas sempre orientado.

Como afirmou Miller, numa Conferência em Buenos Aires, em 2008, “cada analista interpreta a psicanálise”. Esta diretoria considerou que o ensino da psicanálise, bem como a pesquisa de sua teoria e de sua aplicação, oferecidos pelo Instituto, deveriam ir na direção de permitir que os que neles se engajar, fossem como professores, alunos ou participantes dos núcleos de pesquisa, pudessem fazê-lo em sua absoluta singularidade. Que pudessem encontrar no ICP-RJ um espaço diverso para a expressão de seu desejo de sustentar a psicanálise de orientação lacaniana na cidade. Visávamos que o ensino e a pesquisa produzidos tivessem a marca da abertura, da inclusão, da pluralidade e da ética, seguindo de perto as transformações sociais e políticas da época, pensando, ainda, sobre o lugar e papel do psicanalista nelas.

Reservo aqui um pequeno espaço para a distinção — sempre difícil, sempre escorregadia — entre Instituto e Escola. São instituições diferentes, tanto em seus objetivos quanto em sua administração. Cada uma tem sua Diretoria e Conselho próprios. A EBP-Rio, como uma Escola da EBP vinculada à AMP, zela pela formação analítica de seus membros, para que possam sustentar a difusão da psicanálise como saber e como prática, mantendo vivo o descobrimento freudiano, sua leitura realizada por Lacan e a orientação a ela dada por Jacques-Alain Miller. Este também é um objetivo dos Institutos do Campo Freudiano.

Mas a especificidade dos Institutos — o ICP entre eles — é o ensino e a pesquisa realizados de modo sistematizado, regular, contínuo e coletivo. Seu trabalho se dá através de turmas nos cursos e por grupos que compõem os Núcleos de Pesquisa, e, ainda que cada um entre nesse trabalho com sua singularidade, há um processo sistematizado, há programas a desenvolver, seja de ensino, seja de pesquisa. Notem que o Instituto é aberto a todos os que desejam estudar a psicanálise de orientação lacaniana, enquanto a Escola é um pouco mais fechada em torno do trabalho de seus membros.

Arrisco a hipótese de que a Escola zele pela psicanálise em extensão e em intensão, mas que seja nesta última que se situe seu eixo; enquanto o Instituto, ainda que também se oriente pela psicanálise pura, mira permanentemente a extensão. É certamente uma hipótese falha, mas cumpre aqui o objetivo de manter viva a distinção entre Escola e Instituto, ressaltando seu enodamento. Encontrar o próprio modo de estar nessas diferentes instâncias também faz parte da formação.

Destaco agora algumas realizações deste período de trabalho. A coordenação de Ensino prosseguiu com o programa para o Curso Fundamental, mas abriu também cursos de férias: um sempre ministrado por um Núcleo de Pesquisa e outro proposto por algum membro da Escola. Além disso, passamos a realizar um curso suplementar de leitura de seminários de Lacan, além dos demais oferecidos pelos membros da Escola. Outra novidade introduzida pela Coordenação de Ensino foi a série de Conferências sobre as referências de Lacan. O resultado deste trabalho resultou num livro publicado na Coleção Andamento: “Conferências sobre Referências lacanianas.

Já a coordenação de Núcleos de Pesquisa sustentou um trabalho em torno da pesquisa sobre o tema: “O que é um caso de pesquisa para o ICP-RJ?”. Questão que permaneceu como pano de fundo da pesquisa de cada Núcleo e que pôde ser ampliada nas Conversações anuais de Núcleos. Essas Conversações passaram a adotar um modo de trabalho onde um Núcleo apresentava um caso que era discutido por um segundo Núcleo, e o trabalho de Conversação se dava a partir do resultado destes dois trabalhos, conforme a leitura de cada Núcleo. Já a Coordenação de Mídias e Publicações, produziu os dois livros citados acima, num belíssimo trabalho da Comissão coordenada por Paula Legey, além do constante trabalho de divulgação nas mídias e redes sociais. Tudo isso foi sustentado pelos recursos que a Diretoria de Tesouraria administrou valorizando e priorizando o trabalho de formação oferecido pelo ICP. Sempre se envidou todos os esforços para acolher e bem orientar a demanda de cada aluno ou pesquisador do Instituto.  Uma importante realização ocorrida neste período foi a criação do Centro de Consultas do ICP-RJ, um trabalho de clínica, ensino e pesquisa. Esta clínica não se propõe a suprir vazios do poder público, mas permitir o aprofundamento da pesquisa sobre a aplicação da psicanálise na contemporaneidade, sempre balizada em seus princípios e orientada pela psicanálise em intensão tal como é compreendida no Campo Freudiano.

Para finalizar sublinho a alegria de olhar para trás e reconhecer um trabalho intenso, vivo e orientado. Pudemos ver que o ICP-RJ cresceu não apenas no número de seus participantes e mesmo aqueles que nos buscaram a fim de construir sua formação na orientação lacaniana; mas cresceu também em suas ofertas de cursos e atividades de pesquisa. Houve falhas, certamente, mas tentamos acolhê-las e trabalhar por sua solução. E posso dizer que aprendemos também com os erros. Ao longo desses quatro anos acompanhamos o início de turmas e o término de outras, e tivemos a alegria de observar que de cada uma delas, um grupo seguiu conosco, seja nos cursos livres, ou nos Núcleos de Pesquisa, e também nas atividades da Escola que, afinal, é para onde se dirige o ensino e a pesquisa desenvolvidos no Instituto. Se pudesse agradeceria a cada aluno, cada pesquisador, cada associado, pela presença, pelas questões endereçadas, assim como pelo estímulo a manejarmos tanto o saber que circula no Instituto, como as relações sociais, fluidas, abertas, cordiais e responsáveis que caracterizaram esses anos de trabalho.

Obrigada a todas e todos!

Marcia Zucchi
Back To Top