A convite da atual diretora do Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro, Maria…
O trabalho clínico, epistêmico e político do ICP e a pesquisa em psicanálise
Durante os anos em que fui diretora do ICP-RJ orientei nosso trabalho a partir da vocação de pesquisa que o ICP sustenta em sua transmissão da psicanálise. O ensino da psicanálise no ICP se apoia no trabalho epistêmico, clínico e político que cada um de seus participantes realiza em seus diversos locais de trabalho, que não se limita ao atendimento no consultório. Sendo esse trabalho no consultório fundamental pela maneira como ele entrelaça a psicanálise aplicada aos ensinamentos da psicanálise pura.
A pesquisa em psicanálise nos leva a abordar os conceitos, que orientam sua prática, em sua perspectiva de construção, a partir dos textos fundamentais de Freud e Lacan. Buscamos orientar o ensino no ICP a partir do incansável trabalho participantes na atualização dos conceitos, a partir dos impasses encontrados na prática da psicanálise. Atualização que continua de forma viva no trabalho epistêmico, clínico e político na nossa comunidade do Campo Freudiano, orientada por Jacques-Alain Miller. Esta orientação é um convite permanente dirigido aos que sustentam o ensino e a transmissão da psicanálise no ICP para interrogarem os textos que são propostos para o estudo a cada ano. Cada um a sua maneira vem encontrando formas de leitura dos textos que motivem e engajem seus participantes no gosto pela pesquisa.
Com essa orientação estivemos sempre atentos às diferentes formas de segregação oriundas dos impasses próprios de nossa época. E, dessa forma, podemos descobrir a cada vez o uso possível dos instrumentos da psicanálise para evitar que os processos segregativos a serviço da pulsão de morte produzam efeitos desastrosos.
A pesquisa em psicanálise necessita de uma casuística recolhida do atendimento oferecido por um psicanalista (e pelos clínicos que se orientam pela psicanálise) e deve ser acompanhada por supervisão em cada um de seus diferentes momentos, desde o acolhimento até a sua conclusão possível.
Nessa perspectiva, propomos a Conversação dos Núcleos do ICP, que a cada vez nos transmitia a função de formação que pode ter o trabalho de pesquisa nos núcleos. Esses encontros foram importantes para que os núcleos pudessem oferecer, aos participantes do ICP e aos interessados em conhecê-lo, uma prática da psicanálise que conjuga o cálculo das intervenções (interpretação, ato, manobra da transferência) e a disponibilidade à contingência.
É sempre com alegria que sigo as conversações dos núcleos e o seu trabalho de transmissão. A cada vez as conversações vêm encontrando modalidades novas de realização elas mostram a importância da troca entre os núcleos, para não deixá-los no isolamento e poderem dar sua contribuição à pesquisa em psicanálise, que é sustentada no ICP.
Os cursos oferecidos pelo ICP buscam oferecer os instrumentos conceituais para esse trabalho de pesquisa. Para concluir, gostaria de lembrar da proposta de uma clínica no ICP, que muito nos empenhamos em concretizar, mas que só na diretoria coordenada por Marcia Zucchi, e, agora, na diretoria seguinte coordenada por Maria Silvia Hanna, começou a funcionar como Centro de Consultas do ICP-RJ (CC-ICP). O trabalho que temos nela realizado está nos lançando de forma nova e decidida na pesquisa em psicanálise.
Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros
