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Sobre a Jornada de Encerramento da Turma 2014 – parte 1

Comentários de Mayara Alvarenga Ferra (Turma 2016) sobre o trabalho “Isso ainda é psicanálise?”

Pude participar somente durante o período da manhã da Jornada de Encerramento da turma de 2014. Gostei muito dos trabalhos e dos comentários dos debatedores das mesas. Em específico o trabalho da Andrea V. Marcolan, “Isso ainda é psicanálise? – Sobre a formação do analista e o trabalho em instituição”, justamente pelo comentário do debatedor Rodrigo Lyra – a partir da citação de Freud “A atividade psicanalítica é árdua e exigente; não pode ser manejada como um par de óculos que se põe para ler e se tira para sair a caminhar” – de que a psicanálise não é uma ferramenta, e sim um discurso, o qual o analista é tomado pela psicanálise.

Essa questão me tocou, pois é o que venho encontrando na minha pós-graduação em psicologia hospitalar em que ouço muito o discurso de que a psicanálise é uma técnica que se aplica em um determinado paciente, e que em outro se utilizaria outra abordagem, pois a psicanálise não daria conta. Como se fosse algo que você usa só quando acha necessário, como um par de óculos. Assim como também ouço falar que tenho que atuar como psicóloga hospitalar e que essa área nada tem a ver com a psicanálise, como se desse para destituir, separar as duas coisas. Assim como atuar como psicanalista seria somente no consultório, que na instituição, principalmente no hospital, não daria, pois é necessário uma “intervenção breve”.

Estar orientado pela psicanálise é estar orientado pela ética do desejo, já como dizia Lacan no O Seminário, livro 7. É estar tomado pelo seu discurso, do sujeito do inconsciente, sujeito dividido, pela escuta do inconsciente, pela associação livre. A psicanálise não é uma técnica e sim, uma ética. E é a partir dessa ética que se pode “fazer” psicanálise em qualquer espaço, instituição, não sendo possível se desvestir da mesma.

O trabalho clínico, epistêmico e político do ICP

Por Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros

O trabalho clínico, epistêmico e político do ICP no ensino da psicanálise se apoia em sua vocação de pesquisa. A pesquisa entrelaça essas três dimensões e oferece aos alunos, aos associados e aos participantes dos Núcleos diferentes espaços para sua formação permanente, como também a ocasião de descobrir maneiras de estar presente no social, atentos às diferentes formas de segregação oriundas dos impasses próprios de nossa época. Assim, a cada vez, podemos descobrir o uso possível de nossos instrumentos para evitar que os processos segregativos a serviço da pulsão de morte produzam efeitos desastrosos, como previa Lacan em seu texto “Alocução sobre as psicoses da criança”[1].

A pesquisa em psicanálise necessita de uma casuística recolhida do atendimento oferecido por um psicanalista (e pelos clínicos que se orientam pela psicanálise) e acompanhada em supervisão em cada um de seus diferentes momentos, desde o acolhimento até sua conclusão, passando pelo cálculo das intervenções (interpretação, ato, manobra na transferência) e a disponibilidade à contingência.

A cada ano precisamos pensar como renovar esses espaços e transmitir suas elaborações. Os cursos oferecidos pelo ICP buscam oferecer os instrumentos conceituais para esse trabalho de pesquisa. A cada encontro com um paciente renovamos nossa aposta no sintoma, que se apresenta de diferentes maneiras ao longo da experiência, desde localizar os significantes nos quais o gozo está fixado, até levar o sujeito a interrogá-los e produzir novas formas de arranjos sinthomáticos.

Em setembro, os Institutos do Campo Freudiano na América Latina se reunirão em Buenos Aires, no VIII ENAPOL, sobre o tema “Assuntos de família, seus enredos na prática” – o que nos convida mais uma vez a verificar os efeitos do declínio do pai, não só nas novas formas de constituição e organização das famílias, mas também na prática da psicanálise. Estar atento à dimensão da singularidade requer uma prática sem standards, mas não sem princípios, não sem  uma orientação, que é o que buscamos transmitir no ICP.

As famílias mudam, mas os analisantes continuam a falar dos pais e a interrogar as condições de seus nascimentos e a trama dos laços familiares que os antecederam.

Quando Lacan aponta para o fato de que nascemos do mal-entendido[2] de nossos ascendentes, ele oferece um ponto de abertura que permite a separação do peso dos enredos familiares, que transformam em necessários os efeitos dos acontecimentos contingentes que marcaram nossas vidas.

Ao apreender a dimensão de mal-entendido nos enredos que alimentaram suas construções fantasmáticas e seus sintomas, cada um terá a chance de se reconectar com suas marcas singulares, que servirão de apoio para seu estilo de vida orientado pelo seu sinthoma.

Articular mal-entendido e sinthoma serve também de bússola para nos orientarmos em relação às novas parcerias amorosas e aos novos arranjos familiares.

[1] Lacan, J.: “Alocução sobre as psicoses da criança”. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. “[…] o problema mais intenso de nossa época, na medida em que ela foi a primeira a sentir o novo questionamento de todas as estruturas sociais pelo progresso da ciência. No que, não somente em nosso próprio domínio, o dos psiquiatras, mas até onde se estende o nosso universo, teremos que lidar, e sempre de maneira mais premente, com a segregação” (p. 360).

[2] Lacan, J. “O mal-entendido”. In: Opção lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 72, março de 2016.

Sobre a Conversação com Hélène Deltombe no Colóquio da EBP-Rio e do ICP-RJ

Por: Ana Maria Lima (Turma 2015 ) 

A conversação clínica com Hélène Deltombe durante o Colóquio da EBP-Rio e do ICP-RJ Despertar do adolescente: do gozo ao desejo, trouxe ainda mais profundidade a reflexão sobre a direção no tratamento nos dois casos já trazidos para o ICP, surgiram mais detalhes e cenas da clínica. O que podemos dizer que continuou mais marcante foi a destreza da psicanalista em conduzir o tratamento pela clínica do real do gozo, sem perder a dimensão das estruturas edipianas clássicas, ali presentes e registradas,  mas com o tratamento orientado para os significantes de gozo.

Foram discutidos dois casos da prática de Hélène Deltombe com adolescentes. Nos deteremos em alguns breves comentários sobre eles.

A psicanalista se atém ao tratamento do gozo, da vontade de “felicidade”, para a paciente, o gozo absoluto, tendo no horizonte a pulsão de morte. Fazendo emergir o enigma do sintoma em contraponto à fantasia de gozo a qual ela tudo se submete, a paciente se vê as voltas com o desejo de saber, fazendo conexões entre suas produções artísticas e sua subjetividade. Logo: “A força da experiência analítica a colocou na dimensão dos traços significantes de sua existência, lhe abrindo a via de uma expressão artística que tocava seu gozo”. A paciente passa a poder produzir um laço social com sua arte, assentindo com a não relação sexual, e colocando-se mais no movimento de conquista de saber do que da demanda de felicidade anterior.

No outro caso, o paciente começa, a partir da análise, a desconsistir a importância do grupo com quem se identificava e compartilhava um ódio segregatório, proveniente de uma relação parental muito influente na sua formação, que se ressentia do gozo do outro. A partir do olhar da psicanalista é possível chegar ao significante marca do seu ódio, que também marca seu estranho familiar. Ele pode então aproximar-se de sua história de uma forma diferente. O desejo de saber se dá pela satisfação obtida com a descoberta de uma nova língua e pela curiosidade de suas origens.

Nos dois casos, é possível acompanhar a virada do gozo ao desejo, que se dá pela via do significante, pela constituição de um enigma do sintoma, e o desejo de saber, que abre portas para outros meios de satisfação que incluem uma certa conciliação com a não relação sexual e a impossibilidade do gozo absoluto fora da morte.

 

Sobre o Colóquio da EBP-Rio e ICP-RJ

Sobre o Colóquio da EBP-Rio e ICP-RJ:
Despertar do adolescente: do gozo ao desejo

 Por: Thereza De Felice (Turma 2015)

Levantarei nesse breve comentário sobre o Colóquio da EBP-Rio e ICP-RJ, que aconteceu nos últimos dias 23 e 24 de setembro, algumas questões que se colocaram nos trabalhos apresentados e pareceram ter um destino interessante na conferência final de Hélène Deltombe. O fio condutor do Colóquio foi a pergunta: como se vai do gozo ao desejo na adolescência?

O par “violência e delicadeza” na clínica abriu uma questão que se reiterou ao longo do dia, sobre o que marcaria a delicadeza na clínica com adolescentes. O tempo pareceu ser um indicador importante. A escuta do tempo do sujeito, que não é o tempo eterno, mas o tempo do momento, do corte, já é a orientação clínica que tomamos com Lacan. Na adolescência, contudo, esse tempo se mostra mais radicalmente fugaz e sutil em suas aberturas, constantemente obturado pelo Outro, exigindo do analista uma escuta especialmente atenta a essas sutilezas, para poder fazer vacilarem as defesas e abrir uma brecha onde apareça algo da singularidade.

E o que é isso que aparece na adolescência e causa tantas questões e estranhamento, para o adolescente e para aqueles que o rodeiam? O que é isso que exige uma delicadeza a mais? A ideia geral que pareceu se sustentar ao longo do colóquio foi de que o adolescente dá testemunho do desencontro sexual. O adolescente faz sintoma a partir do despertar do gozo opaco que ocorre nesse momento, e isso denuncia sintomaticamente no Outro o impossível de qualquer complementariedade existir.

Assim, é o real que se coloca em jogo para o adolescente, o real da puberdade, segundo Deltombe – momento da diferenciação sexual, escolha de objeto, reconfiguração do narcisismo e desencadeamento do imaginário e simbólico. O adolescente está frente às novas demandas do Outro, para as quais as soluções imaginárias infantis não se sustentam mais. É preciso que ele invente um modo próprio de fazer laço social, com seus próprios recursos – por exemplo, às identificações àqueles que atravessam o mesmo momento. Em suma, o encontro com o real convoca o adolescente a um novo processo de simbolização.

Trata-se, com isso, de pensarmos o que nós, analistas, podemos fazer diante desse processo. A aposta de Deltombe é na oferta do recurso da fala. Uma análise deve se interessar pelo nó que se faz – ou se fez – na adolescência, “enfrentar o desconhecido e criar o inédito”. Ela propõe que, com o declínio paterno, a função paterna na passagem da relação imaginária mãe-criança ao consentimento da castração pode ser substituída pela função significante; “a linguagem no lugar do pai”, ela nos diz.

É a fala enquanto veículo significante que tem o peso da separação e pode operar no real que se coloca na adolescência. Tomar os sintomas como um chamado a que se escute um sofrimento, escuta essa que convoca a uma localização no desejo do Outro, é a alternativa que a análise pode oferecer, por exemplo, às classificações do sintoma pela faixa etária. Deltombe coloca o dispositivo analítico como aquilo que pode permitir que os significantes apareçam em uma lógica que diz respeito ao gozo. Ela articula o desejo do analista a um interesse pelo gozo, na via da fala.

Do gozo ao desejo, da escuta da linguagem em articulação com a posição de gozo com vistas ao objeto que orienta o desejo, essa é a direção do analista. Soma-se a isso, na adolescência, fazer falar um sintoma que se produz no encontro com o impossível da relação e pede uma reconfiguração simbólica importante, a invenção de recursos próprios e a distinção primordial de uma singularidade.

Sobre o Intercâmbio de Institutos, 16 de novembro de 2015

No dia 16 de novembro, aconteceu na Seção Rio mais um intercâmbio entre Institutos, que contou com a presença de Ana Lydia Santiago, diretora do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, comentando um caso clínico apresentado por Mariana Pucci, participante do núcleo de Psicose e Saúde Mental do Rio e dos Encontros com a Clínica do Autismo, que também acontecem na Seção.

A mesa foi coordenada por Maria Inês Lamy. O caso trazido dizia respeito a um menino autista atendido por Mariana em uma instituição de saúde mental, em um espaço que lança mão de oficinas terapêuticas como dispositivo clínico. O relato dá notícias sobre as posições subjetivas do menino que apareciam no trabalho e os efeitos das intervenções da analista.

Ana Lydia Santiago abriu o debate com comentários e questões importantes acerca da clínica do autismo e da questão diagnóstica. Como pensar, tomando como ponto de partida o caso apresentado, a posição do autista frente ao Outro?

Além disso, Ana Lydia pôde nos transmitir algo sobre a maneira como se organiza e orienta o ensino no Instituto de Minas, apresentando os projetos de sua direção e os efeitos que já se pode recolher.

Thereza De Felice, turma 2015

Comentários sobre o Eixo 4 da Manhã Clínica das XXIV Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP-RJ

Os trabalhos apresentados na manhã clínica pelo eixo 4 nos convocou a pensar o mal-entendido do corpo “tomado como objeto, artefato ou mecanismo, em suas partes”. Nos encontramos, assim, com os impasses da clínica cotidiana, nos mais diversos dispositivos, o que nos trouxe uma dimensão importante da psicanálise em sua conexão com a cidade. Seja em ONG’s, na Saúde Mental, no Hospital, na Internet, nos esportes, ou até mesmo no consultório particular, a discussão suscitada pelos trabalhos apresentados circulou pelo que há de mais íntimo à prática psicanalítica: o encontro.

O que ocorre quando um sujeito encontra um analista? Ou ainda melhor, o que ocorre quando um analista supõe um sujeito? Haveria um mal-entendido também aí? Onde a psicanálise, encarnada pela presença de um analista convoca um sujeito a advir onde ele já não é mais quase suposto? Seja por demanda própria ou pela contingência institucional?

Os trabalhos apresentados apontaram as encruzilhadas institucionais em suas dimensões de lugares de resposta, e muitas vezes, resposta social à problemas tipicamente clínicos,  como também apontaram para a questão da disponibilidade do analista em ouvir, mas não só. Pois sabemos que para além da demanda ha desejo.

Esses corpos adoecidos ou doloridos, atletas ou obesos, infantis, toxicômanos, estão mal-entendidos nisso que Laurent chamou de “delírio da normalidade”. Nomeação que nos remete às urgências, usos e ideais que irrompem à partir desse corpo e que o atravessam e o marcam. Corpo que vêm à clínica, falado, estranhado, condenado, questionado, numa época em que, franqueados pelo discurso médico/científico, os imperativos superegóicos parecem prevalecer na ordem do dia, apontando toda a sorte de condutas e soluções que implicam diretamente esse mesmo corpo.

A presença do analista, no avesso dessa maré, vem apontar que há furo, ou ainda, que é preciso haver furo nessa produção maniaca de saberes ideais. Ali onde busca-se evitar, encobrir, solucionar, o mal-entendido do corpo, o analista o escuta, sublinha, o põe a trabalho numa lógica que é outra.

Se propõe a fazer coisas num movimento oposto ao da mania contemporânea, se dá ao artesanato de fazer a coisa psicanalítica insistir.

Como apontou a mesa – Ressonâncias do Corpo Hoje – o analista está na cidade e trabalha com essa dimensão do invisível, do impossível, que não cessa de se inscrever. ‘É convocado a um fazer, que dialogue com os discursos de nossa época’, e a recolher no um a um da clínica seus efeitos e desdobramentos.

Andrea Marcolan (Fundamental 2014) e Maira Dominato Rossi (Fundamental 2014)

Comentários sobre o Eixo 2 da Manhã Clínica das XXIV Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP-RJ

Os trabalhos apresentados no Eixo 2 da manhã clínica nos permitiram tocar importantes questões em torno dos Usos do corpo. O que chega à clínica hoje se tornou sensível nas três mesas que compuseram o eixo: que uso fazer desse corpo, muitas vezes estranho, monstruoso, sempre submetido ao movimento pulsional, que não vem com manual de instruções? Como se servir dele? Seja na montagem de um corpo de mulher, no funcionamento de um corpo de homem ou mesmo nos casos em que esses limites não estão em jogo, observamos sujeitos às voltas com suas tentativas de encontrar recursos para lidar com o mal-entendido. O que pode a psicanálise operar nesse ponto?

Nas saídas pela neurose o mal-entendido do corpo aparece como radicalidade na impossibilidade da relação. Há sempre Outro que guardaria a verdade sobre o uso correto do corpo e da satisfação do parceiro, como se a concordância entre identidade e imagem corporal se passasse pela via pedagógica. Para tanto, vemos tentativas frustradas de reunir pedaços dos corpos de outros e, com um desenho ideal, fazer existir a relação sexual. Aqui, a fala em análise pode fazer furo nessa crença, pausa na busca desenfreada pelo ideal e pela completude.

Nas psicoses, por outro lado, onde os pontos de apoio e referência são escassos, é preciso boa dose de criatividade para sustentar-se no discurso. Em mundos onde tudo escapa ou onde tudo é cheio, sem furos, encontramos saídas que podem afastar do real da relação, mas que permitem a construção de semblantes para fazer circular estes corpos. O analista, por vezes, poderá servir de apoio com seu próprio corpo: vimos propostas de parceria onde a voz ou o olhar podem operar como molduras para os corpos destes sujeitos, recursos simbólicos encontrados para moderar a angústia.

De todo modo, no trabalho de análise, seja no sentido de operar cortes ou amarrações, é possível inventar formas de sustentar-se frente ao olhar do Outro para valer-se daquilo que, no corpo, escapa. “Nunca se é aquilo que se tem” -, nos disse Marina Recalde em sua conferência na sexta-feira – mas para que esse corpo não se apresente totalmente à deriva, à revelia do sujeito, é importante poder modular “algo do corpo que não se deixa capturar”. Nos casos clínicos apresentados pudemos ler o trabalho dos analistas neste sentido. Cuidadosamente comentados, os casos convergiram para a discussão sobre a importância da hipótese diagnóstica. Concluiu-se que é essencial sustentar essa discussão e seus impasses, sem renunciar a ela, pois a direção do tratamento não está desarticulada dos usos do corpo que poderão surgir em cada caso.

Marina Sereno (Turma 2015)

Comentários sobre o Eixo 1 da Manhã Clínica das XXIV Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP-RJ

A primeira mesa, com o título ‘O ilegível do sintoma e a opacidade do gozo’, apresenta questões da clínica nas dimensões da voz, som, escrita e leitura. Voz/som que provoca acontecimento de corpo, o mal estar do corpo, um corpo que padece além da dimensão biológica. Escrita/leitura que aparece como endereçamento possível à inscrição subjetiva. O que convoca o analista às questões paradoxais da sua formação: como ler o sinthoma e identificar o lugar de gozo no corpo? Como avançar do objeto a ao sinthoma, para que apareça a alteridade radical, aquilo que não se lê, o que não faz significante na cadeia?

O tema desta mesa convoca a pensar: O que muda na ética da psicanálise de hoje? Quais são os limites da prática? A verdade mentirosa e o gozo, o avanço dos conceitos e sua inscrição em cada caso, oferecendo a possibilidade de leituras ao analista e analisando. A escrita como expressão do que se lê e o que se (in)escreve numa análise. A interrupção do analista opera, num determinado momento da análise, e convoca a pensar sobre a interpretação hoje. Entender os deslocamentos do sentido para o gozo, como também pensar se a fantasia mantém a sua vigência, se pode servir como ferramenta para as neuroses. Se sim, como isso se isso dá? A verdade e o gozo, hoje, apresenta o deslocamento do conceito de inconsciente (Freud) para o Falaser (Lacan) – da verdade ao gozo.

A segunda mesa ‘um olhar sobre o narcisismo’ apresenta o singular modo de viver o mal entendido de um corpo. Como um adolescente pode se virar com o seu corpo em análise? Do ideal do eu ao eu ideal e o narcisismo. O que se configura do corpo na adolescência parece ser uma entrada do adulto na criança. Miller no seu livro em direção à adolescência, diz: o adolescente nega o real para viver os signos. E na velhice há um narcisismo terciário? Envelhecer doí, a imagem especular que convoca o ideal do eu e eu ideal. O real, imaginário e simbólico de um corpo que envelhece. Cita Clarice Lispector, ‘em que espelho ficou o rosto?’. O resto e a dor que traduz esse pulsar que está prestes a cessar. A analista interroga-se sobre a possibilidade do narcisismo terciário, mas o inconsciente, como diz Freud, é infantil. E também não acontece a morte de um corpo infantil na adolescência?

Através do filme ‘O abutre’ nas imagens que apresentam semblantes de corpos, imagens de traços traumáticos, a pregnância de um olhar que vê os fragmentos de um corpo e indaga o que é ter um corpo. Do espetáculo do horror a indagação do que não se vê. O corpo revisitado, a mídia e o falaser, faz indagar sobre o lugar do gozo do corpo na sociedade atual.

Pensar o corpo seja nas imagens despedaçadas, apresentadas no filme ‘abutre’ – do gozo do um que não incluí o outro, mas que produz efeitos naquele que vê as imagens. Seja no corpo da adolescência, um tempo de reafirmar a escolha sexual, dar conta das transformações de um corpo que provoca o desconhecido – Quem é esse adulto em mim? Uma demanda do que pode ou não ser formulado do ilimitado do amor. Seja na velhice que urge o anunciado da finitude de um corpo, isso também se dá noutros tempos da vida? As pessoas envelhecem, mas o sujeito envelhece? A dor de existir nos vários tempos da vida, a dor do dente cabe dentro do orifício – um olhar sobre o narcisismo. Ir além, entre doer e doar há uma escolha do sujeito. Já temos muito que se haver com o narcisismo primário e secundário, independente da idade cronológica, como diz Freud, o inconsciente é infantil. O corpo como o lugar do trauma, sempre escapa. A aposta do analista no tratamento do que excede no gozo está para além do significante ser adolescente ou ser velho, traduz o diferente lugar da psicanalise que não obtura como o geriatra/pediatra, deixando aberto o buraco, a ferida que doí e pulsa. A caverna psicológica de cada um e suas marcas no corpo, a intervenção do analista padece com a sustentação do que é possível em cada tempo de analise.

A terceira mesa revela os modos de tratamento do gozo na transferência. A obra de Pina Bausch como uma possibilidade de um corpo na psicose que evoca o caso Joyce (Lacan) de um enlaçamento na produção subjetiva. Como o mistério da libra de carne, extração do objeto do mundo como resposta subjetiva na construção do fantasma marca cada corpo? O percurso que o trabalho chega quando se pensa o corpo na psicose – Como Joyce e Pina se servem da arte para depois achar o saber que recolhe? Certas coisas se dizem em palavras, outras só podem ser sentidas ou por movimentos como a dança ou escritas de fragmentos vivos. Tem certas coisas que não sabemos como ir e aí dançamos, escrevemos, pintamos… Injetar a vida na vida!

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra.”

Carlos Drummond de Andrade ·

O tempo é lógico e não cronológico, já dizia Lacan. As diferentes durações em análise, algumas bem recentes e outras bem longas, se inscrevem em recortes/leituras possíveis do analista. O desejo e aposta na travessia e o seu limite na fantasia. Qual o tempo de final de analise? O curioso quando o sujeito fala, insiste, não falta e repete a pergunta em cada encontro amoroso – Já está bom? Quem permite o final de um percurso? Do primeiro Freud ao último Lacan e leituras de Miller e outros, o lugar do analista para cada sujeito fazer a sua travessia. Os cuidados da clínica atual, um acontecimento de corpo e gozo, só sendo possível na condição de transferência do suposto saber num tempo que não é cronológico é lógico de cada um.

A convocação do nome do pai e a cisão, um drama marcado pelo S1. Uma experiência vivida, também por Lacan, na cisão da escola EBP com a AMP e representada pelo ‘Lago do Cisne’. No final a morte anunciada é apresentada na fantasia e no real, se constrói numa travessia que leva tempo, o tempo de cada um. A função da dança, a arte no resto, aquilo que falta e insiste em cada encontro com o desencontro. O corpo revisitado permite o delírio, o sinthoma é um acontecimento de corpo, a corporificação da entrada da linguagem no corpo.

O sujeito falaser e sua fuga errante num gozo sem sentido, um corpo e o seu lugar de dor na busca de sentidos, as escolhas de objeto de amor, a construção de um corpo que se apresenta estranho e provoca sensações fora de controle. O corpo seja na adolescência ou velhice, e suas marcas de um acontecimento de corpo que insiste e padece na imagem especular do ideal do eu e eu ideal. A libido e os objetos perdidos à urgência de uma vida que se esvai nas imagens de corpos sem vida, num gozo que se reproduz num excesso em que cada um há que chegar à dose certa do seu resto.

Ana Cristina Aguiar Vilhena de Carvalho (Turma 2014)

* As menções que pudessem identificar os casos clínicos foram retiradas em nome do sigilo dos pacientes.

Ressonâncias da conferência de Marina Recalde: O mal entendido do corpo

Marina cita Miller em Peças Soltas ao falar da dimensão real do corpo como mais além do significante, ou em outras palavras, o corpo falante enquanto inconsciente é o real. Entretanto, a problemática que persiste na psicanálise vai justamente ao encontro dessa afirmação: o que pode ganhar, afinal, estatuto de significante ou não? Unido a isso e ainda como ecos do Enapol, Marina ratifica que a questão de como atingir o gozo com a palavra parece assombrar insistentemente os analistas, uma vez que há uma hiância inalcançável entre o significante e o que escapa dele como gozo.

Aponta ainda que há uma disjunção do significante e gozo, já que este prescinde do Outro. Ora, se o percurso de uma análise vai do corpo falado pelo Outro (sintoma) para o falar com o corpo (sinthoma) e a clínica atual nos mostra uma dificuldade de dirigir-se ao Outro, a questão do que é possível ao analista se faz presente. Marina nos indica que os analistas já estão sabendo-fazer alguma coisa diante disso, porém é preciso dizê-lo melhor, ou transmiti-lo melhor, se podemos assim articular, e faríamos então, tal como deve ser, a teorização da prática e não a prática da teoria.

Com isso, Marina aposta de que o encontro com um analista tem efeitos no corpo e na subjetividade elevada a uma “dignidade subjetiva”. Uma questão ficou para mim: se é preciso localizar o falante do corpo, que não é discurso, e só temos a fala do analisante, como pode o analista escutá-lo?

Heloisa Shimabukuro (Turma 2013)

Comentário sobre a mesa redonda: A obra prescinde do artista

O que seria uma mesa de discussão se torna uma instigante meia roda de conversas e questionamentos com o tema “A obra prescinde do artista”. Fomos apresentados a obras de Adriana Varejão, iniciando, assim, uma discussão acerca das articulações entre psicanálise e arte. A própria construção da identidade visual da jornada traz “Trois petites morts”, três muros brancos e limpos invadidos por cortes e feridas. Feridas estas que aparecem nas demais obras acompanhadas de manchas de sangue ou representadas por pedaços de carne, vísceras à mostra. O furo, no que estava coberto e velado por um muro, um revestimento de azulejos retos, brancos e limpos, nos remete à pele enquanto algo que vela o vivo e real de nosso próprio corpo. Ana Lucia Holck fala do azulejo branco como a pureza que reveste o vivo, representado pelas feridas.

Ao contrastar horror e belo através de sua arte, Varejão nos causa. Como disse Andréa Vilanova: “fratura nosso olhar e perturba nossas defesas”. A conversa girou em torno da impossibilidade de uma obra de arte representar o real, ainda que o possa presentificar em alguma medida. A obra que resiste a ser capturada por uma fotografia, apesar de não representar o real, é capaz de ressoar algo em seu espectador no momento do encontro. É certo que este encontro é marcado por algo de opaco, um infinito que os olhos não podem captar, mas este próprio inalcançável seria o mal-entendido que nos acompanha sempre em nossa jornada. Isso porque a arte toca um ponto de desconhecido em nós mesmos que remete ao desejo, suscita algo de um impossível de ser colocado em palavras.

As partes destruídas de um muro dando vazão às vísceras de um corpo vivo, corpo despedaçado e fragmentado. Pedaços de carne colocados em belas pinturas clássicas. A invasão de uma carne sem sujeito, carne desvelada pela pele. Manoel Motta traz a possibilidade de a arte contemporânea denunciar a pintura enquanto véu, dar fim a um espetáculo inaugurando na arte, porque não, uma nova ética e uma nova estética. Para Cristina Duba, esse movimento de desconstrução da arte contemporânea pode estar ligado a uma função de apaziguamento, pois, ao se deixar ferir, a obra de arte dá lugar ao furo, ao sem sentido, à opacidade do real.

Os muros então, que teriam a função de, assim como cortinas, servir de véu separando dentro e fora, o que está na frente e o que está por trás, são denunciados como puro semblante na medida em que, citando Stella Jimenez: “o horror não está nem dentro e nem fora, está no espaço impossível, entre as duas pedras do azulejo, como se fosse entre a pele e a carne”. Cabe então a nós, espectadores, nos deixarmos causar, ensinar e surpreender pela arte que se abre ao lugar do enigma e do espanto, assim como o faz a psicanálise.

Bárbara de Queiroz Sousa (Turma 2015)

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