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Sobre a Jornada de Encerramento da Turma 2014 – parte 3

Comentários de Ana Beatriz Rocha Bernat (Turma 2014) sobre a mesa “Corpo e angústia”

A mesa foi coordenada por Fernando Coutinho e contou com as contribuições de Sarita Gelbert para o debate. Ana Beatriz Rocha Bernat, Maira Dominato Rossi e Monica Marchese Swinerd, apresentaram os trabalhos: “A incidência da escuta do analista na clínica do luto: do buraco ao vazio”; “Um corpo: entre o gozo e o desejo” e “Do corpo doente ao corpo abusado: sobre uma entrada em análise”, respectivamente. A organização da Jornada construiu esta mesa em função dos eixos corpo, medicina e angústia e os trabalhos vieram dar testemunho da clínica orientada pela psicanálise em instituições médicas e seus efeitos para a escuta do sujeito e de seu corpo.

Ficou bastante evidente a potência da escuta psicanalítica para acolher aquilo que resta do discurso médico e manifesta-se sob a forma de angústia no contexto hospitalar. Acolher o sujeito, seja ele o paciente ou a equipe que trata dele, e “instrumentalizar a angústia” seria a grande contribuição destes trabalhos, todos construídos a partir de fragmentos de casos das praticantes no hospital.

Sarita Gelbert iniciou o debate evocando uma Conferência de Lacan intitulada “O lugar da Psicanálise na Medicina”, sublinhou a importância do trabalho do analista com a equipe interdisciplinar que assiste ao paciente, a diferença e mesmo o declínio da função do médico na atualidade, se comparado ao médico sábio de antigamente. Lacan, nesta conferência, sublinha que o corpo goza e encontra-se dividido entre gozo e desejo, que está na forma do médico responder à demanda que lhe é endereçada a justificativa de sua existência. Há uma dimensão ética aí implicada e um trabalho do analista neste contexto dirigido ao gozo e que favorece a instrumentalização da angústia dos sujeitos envolvidos neste contexto.

Do primeiro trabalho, Sarita destacou a relevância do trabalho de luto no contexto da oncologia pediátrica que envolve a tríade câncer, criança e morte e um excesso sem fim. O manejo do caso tornou-se possível a partir do manejo da demanda dentro da equipe e da possibilidade de acolhimento daquele pai enlutado. Trata-se da equipe muitas vezes poder suportar a “transferência negativa” sem a ela responder defensivamente. Houve uma questão sobre a forma de tomarmos o ato deste pai: seriam passagens ao ato ou atuações. E a construção da escuta deste caso que só foi possível a partir de seu acolhimento em um grupo e da tomada daqueles atos, que eram indicativos de um tratamento selvagem dado à angústia por aquele sujeito, como um apelo e pela oferta e sustentação da escuta orientada pela psicanálise em outro contexto (fora do grupo). O encaminhamento do caso dentro da equipe favoreceu a sintomatização de tamanha angústia e a elaboração possível do luto.

Do segundo trabalho, Sarita destacou a relevância da instrumentalização da angústia no caso de uma paciente que se submete a três cirurgias de extração. Apontou na posição da paciente não ter espelho uma interrupção do circuito pulsional que envolve o olhar neste caso. Evocou a definição lacaniana da inibição como “sintoma posto no museu” e levantou a questão: “as cirurgias neste caso não seriam uma passagem ao ato, um encontro com o corpo despedaçado”.

Do terceiro trabalho, sublinhou-se a função do analista “construir fraturas” no discurso médico protocolar e favorecer o ciframento do gozo por parte do sujeito em tratamento psicológico que neste caso, dada a orientação de trabalho da praticante, tornou-se uma demanda de análise. Observou-se ainda neste caso a pregnância do objeto voz e que a incidência da escuta da analista tornou o câncer para esta paciente uma coisa completamente diferente do que era antes deste convite à palavra.

Trata-se, então, na escuta orientada pela psicanálise na instituição hospitalar, de favorecer o ciframento do gozo e estarmos atentos ao que poderíamos nomear como tratamento selvagem dado ao gozo.

 

Comentários sobre o Eixo 4 da Manhã Clínica das XXIV Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP-RJ

Os trabalhos apresentados na manhã clínica pelo eixo 4 nos convocou a pensar o mal-entendido do corpo “tomado como objeto, artefato ou mecanismo, em suas partes”. Nos encontramos, assim, com os impasses da clínica cotidiana, nos mais diversos dispositivos, o que nos trouxe uma dimensão importante da psicanálise em sua conexão com a cidade. Seja em ONG’s, na Saúde Mental, no Hospital, na Internet, nos esportes, ou até mesmo no consultório particular, a discussão suscitada pelos trabalhos apresentados circulou pelo que há de mais íntimo à prática psicanalítica: o encontro.

O que ocorre quando um sujeito encontra um analista? Ou ainda melhor, o que ocorre quando um analista supõe um sujeito? Haveria um mal-entendido também aí? Onde a psicanálise, encarnada pela presença de um analista convoca um sujeito a advir onde ele já não é mais quase suposto? Seja por demanda própria ou pela contingência institucional?

Os trabalhos apresentados apontaram as encruzilhadas institucionais em suas dimensões de lugares de resposta, e muitas vezes, resposta social à problemas tipicamente clínicos,  como também apontaram para a questão da disponibilidade do analista em ouvir, mas não só. Pois sabemos que para além da demanda ha desejo.

Esses corpos adoecidos ou doloridos, atletas ou obesos, infantis, toxicômanos, estão mal-entendidos nisso que Laurent chamou de “delírio da normalidade”. Nomeação que nos remete às urgências, usos e ideais que irrompem à partir desse corpo e que o atravessam e o marcam. Corpo que vêm à clínica, falado, estranhado, condenado, questionado, numa época em que, franqueados pelo discurso médico/científico, os imperativos superegóicos parecem prevalecer na ordem do dia, apontando toda a sorte de condutas e soluções que implicam diretamente esse mesmo corpo.

A presença do analista, no avesso dessa maré, vem apontar que há furo, ou ainda, que é preciso haver furo nessa produção maniaca de saberes ideais. Ali onde busca-se evitar, encobrir, solucionar, o mal-entendido do corpo, o analista o escuta, sublinha, o põe a trabalho numa lógica que é outra.

Se propõe a fazer coisas num movimento oposto ao da mania contemporânea, se dá ao artesanato de fazer a coisa psicanalítica insistir.

Como apontou a mesa – Ressonâncias do Corpo Hoje – o analista está na cidade e trabalha com essa dimensão do invisível, do impossível, que não cessa de se inscrever. ‘É convocado a um fazer, que dialogue com os discursos de nossa época’, e a recolher no um a um da clínica seus efeitos e desdobramentos.

Andrea Marcolan (Fundamental 2014) e Maira Dominato Rossi (Fundamental 2014)

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