Psicanálise, ciência e política

(Adriano Aguiar – Retrospectiva da pesquisa do Núcleo de Psicanálise e Medicina em 2015)

Na último encontro do Núcleo de Psicanálise e Medicina do ano de 2015 fizemos uma retomada do trabalho desenvolvido no período. Este texto é a tentativa de colocar em escrito aquilo que se depositou de nossas discussões ao longo do ano.

Na famosa conferência sobre O lugar da psicanálise na medicina, Lacan conseguiu perceber o essencial do que seria uma certa transformação na medicina, que hoje aparece de forma bastante clara para nós. Também soube ver como essa mudança se articula com as transformações do mundo em que vivemos. Não por acaso, Lacan inicia a sua intervenção apontando que naquele momento (1966) uma redefinição da democracia estava em curso, anunciando que no futuro o mundo seria estruturado de outra maneira. Que Lacan tenha dito isso em uma conferência sobre a medicina, só confirma sua percepção aguda do lugar central que esta ocupa na subjetividade de cada época:

“É no ponto em que as exigências sociais são condicionadas pelo aparecimento de um homem que sirva às condições de um mundo científico, que provido de novos poderes de investigação e de pesquisa, o médico encontra-se face a novos problemas. Quero com isto dizer que o médico nada tem de privilegiado na organização desta equipe de peritos diversamente especializados nas diferentes áreas científicas. É do exterior de sua função, especialmente da organização industrial, que lhe são fornecidos os meios, ao mesmo tempo que as questões, para introduzir as medidas de controle quantitativo, os gráficos, as escalas, os dados estatísticos através dos quais se estabelecem, indo até uma escala microscópica, as constantes biológicas. (…) O médico é requerido em sua função de cientista fisiologista, mas ele está submetido ainda a outros chamados. O mundo científico deposita em suas mãos o mundo infinito daquilo que é capaz de produzir em termos de agentes terapêuticos novos, químicos ou biológicos. Ele os coloca à disposição do público e pede ao médico, assim como se pede a um agente distribuidor, que os coloque à prova. Onde está o limite em que o médico deve agir e a quê deve responder? A algo que se chama demanda? ” (Lacan, 2001)

Partindo desta observação de Lacan, a respeito da íntima relação entre a medicina e a transformação pela qual vinha passando o mundo em que vivemos (o que de certo modo antecipa em 10 anos aquilo que depois Foucault veio a desenvolver com o conceito de biopolítica), nos voltamos para investigar o momento histórico de emergência do ensino de Lacan, no seio do movimento que fez barulho no meio intelectual francês nas décadas de 1950/60 – o estruturalismo.

Interessava-nos sobretudo investigar a relação do estruturalismo com a ciência e com as transformações histórico políticas daquela época. Uma citação de Claude Levi-Strauss nos interessou bastante. Em um dos capítulo iniciais do livro Antropologia Estrutural, na qual ele reconhece sua dívida com Sausurre e Jakobson. Levi-Strauss define assim sua concepção de estrutura inconsciente:

“Se, como cremos, a atividade inconsciente do espírito consiste em impor formas a um conteúdo, e se as formas são fundamentalmente as mesmas para todos os espíritos, antigo e moderno, primitivo e civilizado, (…) é preciso e basta atingir a estrutura inconsciente, subjacente a cada instituição ou a cada costume, para obter um principio de interpretação válido para outras instituições e outros costumes” (Levi-Strauss, apud, Peters, M. p. 23)

Ao ler esta passagem hoje em dia, é surpreendente observar quão fortemente o movimento estruturalista apostava que a linguística estrutural seria capaz de trazer, para o campo das chamadas ciências humanas, uma cientificidade universal. Miller, por exemplo, ao comentar sobre a segregação de estrutura à qual a psicanálise é submetida pelo senso comum, afirma que Lacan sonhou poder suspender esta segregação pela via do estruturalismo, e o definiu da seguinte forma:

“O que é o estruturalismo cujas impressões marcam o ensino de Lacan? Foi um apelo feito aos matemáticos para resolver – por mais inverossímel que isso possa parecer – o problema da condição humana. É a ilusão de que se pode substituir o trágico pelo matemático, e até mesmo pelo lógico; substituir o patema pelo matema” (Miller, 2002, p. 8)

Não foi à toa que a geração seguinte de filósofos franceses (os chamados “pós-estruturalistas” – Derrida, Deleuze e Foucault), armada com o pensamento de Nietzsche que estava se introduzindo na França, e entusiasmada pelas transformações políticas e dos costumes que desembocaram nos movimentos de maio de 1968, fizeram uma forte crítica ao estruturalismo (e consequentemente à psicanálise lacaniana) por considerarem a perspectiva estrutural cientificista, a-política e a-histórica.

Com este background filosófico, pudemos compreender melhor o texto que inaugurou o segundo momento da investigação do núcleo, no primeiro semestre. Podemos ler o texto Intuições Milanezas de Jacques-Alain Miller, como uma resposta a esta crítica dos pós-estruturalistas. No embalo do sucesso causado pelo livro Império, de Antonio Negri e Michael Hardt – que se tornou um best seller ao analisar criticamente a globalização a partir da passagem de uma sociedade disciplinar (Foucault) para uma sociedade de controle (Deleuze) através do conceito de Biopolítica – Miller retoma um aforisma de Lacan no seminário sobre A lógica da Fantasia: “O inconsciente é a política“.

O desenvolvimento que Miller dá a essa passagem de Lacan responde àqueles que só souberam enxergar na psicanálise lacaniana um estruturalismo formal universal, que independe da história e da política. Num movimento presciso, Miller deixa para trás essa crítica já cansada, mostrando que Lacan qualificou o inconsciente como “transindividual”. Segundo Miller, o aforismo “o inconsciente é a política” transporta o conceito de inconsciente para fora da esfera solipsista, inserindo-o na Cidade, fazendo-o depender da História.

A inflexão que Miller deu à sua leitura de Império, reconhecendo, na sociedade disciplinar e na sociedade de controle, as estruturas lacanianas do todo e do nãotodo, enriquece muito a grade de leitura da psicanálise na era da globalização. Pois, com esta perspectiva, podemos passar de uma visada político-sociológica, para uma pegada propriamente clínica sobre o mundo atual, articulando as transformações da cultura com a constituição do sujeito.

Munidos desta grade de leitura, pudemos então retornar um pouco no tempo, para ler o modo como o sociólogo Robert Castel descreveu o modo pelo qual o cruzamento histórico do neoliberalismo emergente, no final de década de 70, com as novas possibilidades tecnológicas, trazidas pelo surgimento dos computadores, implicaria em outro tipo de relação com os corpos e com a vida, que transformaria a medicina.

Se para Foucault, as normas sociais e as técnicas disciplinares tinham como objetivo implementar uma “anatomopolítica dos corpos”. O que Castel, já em 1981, procurava fazer seus leitores perceberem é que, no limite, as lutas libertárias do final dos anos 60 pareciam ter derrapado para uma concepção de subjetividade liberada que logo se encontraria sem confrontação, não tendo mais outro objetivo senão sua própria cultura. Estávamos mergulhando, diz ele, em um narcisismo coletivo “pós-disciplinar”, que busca nada mais do que extrair uma mais valia de gozo ou eficiência dos corpos enfim liberados.

O processo de liberação que denunciava as instituições totalitárias, como os manicômios por exemplo (Castel foi um grandes militante e teórico da reforma psiquiátrica na França em seus livros anteriores), foi sendo rapidamente capturado por outras estratégias. O sistema se modernizou e passou a adotar estratégias cujas funções não podiam mais ser desvendadas apelando para as velhas categorias de hierarquia, coerção, repressão, etc.

Os desdobramentos da medicina mental, através de três frentes inéditas, garantiria a renovação das estratégias, articulando a medicina menos ao poder patriarcal do Estado do que ao poder nãotodo do capitalismo neoliberado. Essas três novas frentes da medicina seriam o que Castel chamou de:

1) retorno do objetivismo médico, na qual reconhece a psiquiatria biológica insurgente (lembremos que o DSM-III foi publicado em 1980);
2) gestão das populações de risco, identificando nas avaliações estatísticas uma nova fórmula de gestão do social, que não passa pela vigilância direta, hierárquica, corpo a corpo;
3) técnicas de intensificação do “potencial humano”, que estão na raiz do que hoje podemos reconhecer como terapias cognitivo comportamentais e de auto-ajuda.

Castel percebeu assim, os primórdios do que viria a se transformar numa completa rearticulação do campo da medicina que, tal como Lacan havia previsto em 1966, estava diretamente articulada às transformações do mundo pelo capitalismo globalizado, que emergia e se modulava, antes mesmo da queda do muro de Berlin.

Estas novas articulações do campo da medicina com o capitalismo se transformariam 30 anos depois, naquilo que Nikolas Rose chamou de Politics of Life Itself, que foi nossa leitura seguinte.

No final do século XX, muitos previram que nós estávamos entrando naquele que seria o século da biotecnologia, uma era na qual assistiríamos o surgimento de novas possibilidades médicas, ao mesmo tempo fascinantes e preocupantes. Para a medicina, o sequenciamento do genoma humano prometia inaugurar uma nova era de manipulação genética para o tratamento de doenças até então incuráveis, mas também com consequências potencialmente terríveis. A vinculação da genômica com a evolução das tecnologias de reprodução artificial, a pré-implantação de diagnósticos genéticos, e até mesmo a clonagem, fazia alguns imaginarem um mundo de pessoas com qualidades e capacidades fabricados sob demanda, tal como assistimos no filme Guattaca. Outros diziam que uma nova geração de psicofármacos logo nos permitiria regular nossos humores, emoções, desejos e inteligência conforme a nossa vontade. Alguns chegaram a sonhar até com a conquista da imortalidade, um mundo em que os seres humanos alargariam a sua duração de vida indefinidamente.

Muitas destas técnicas biomédicas na verdade já fazem parte do nosso cotidiano: triagem genética, tecnologias reprodutivas, transplantes de órgãos, a modificação genética de organismos, e as novas drogas psiquiátricas, por exemplo – que são hoje os medicamentos mais consumidos no mundo. Enquanto muitos depositam enormes esperanças nessas novas tecnologias médicas, outros alertam para os perigos de se tratar a vida humana e de outros seres vivos (vide o debate a respeito dos alimentos “transgênicos”) como infinitamente maleável.

Vale lembrar que foi justamente este o tema do último Congresso da Associação Mundial de Psicanálise, em Paris em 2014, quando Miller nos convidou a investigar as “desordens no real” produzidas pela “bioengineering” que, segundo ele, será a grande característica deste século XXI. (Miller, 2012)

Nikolas Rose nos mostra que a medicina do futuro, que já vivemos, será cada vez menos delimitada pelos pólos de saúde e doença, se ocupando cada vez mais da nossa crescente capacidade de controlar, gerenciar e remodelar, incrementar e até mesmo transformas as capacidades vitais dos seres humanos como seres vivos (e o espectro de suas modalidades de gozo, diríamos). Isto tem uma série de novas possibilidades e perigos, que não caberia aqui desenvolver.

De todo modo, tudo isto nos convoca a perguntar: qual deve ser a posição do psicanalista frente a essas transformações na medicina e na subjetividade de nosso tempo?

Um texto clássico de Eric Laurent nos serviu de bússula – O Analista Cidadão. Neste texto, ao falar do papel do psicanalista na saúde mental, Laurent lembra que quando o mundo se tornou mais permissivo, após os anos 60, a denúncia típica dos analistas de que havia alguma forma de gozo escondida por trás dos ideais, ficou um pouco fora de moda, de modo que em uma determinada etapa dos movimentos de esquerda, os analistas foram assumindo cada vez mais a posição do que Laurent chamou de “intelectual crítico”. O intelectual crítico era aquele que se mantinha em seu lugar, tranquilo, se dedicando somente a produzir o vazio. Era uma concepção da psicanálise como prática da desidentificação. No social, o analista levava a desidentificação a todas as partes, sempre denunciando a ordem do mundo. É contra esta posição que Eric Laurent se insurge, ao refletir sobre o analista na saúde mental:

“Digamos claramente que temos que destruir essa posição: delenta est! Ela não pode prosseguir e, se os analistas creem que podem ficar aí… seu papel histórico terminou. A função dos analistas não é essa, daí o interesse que há em inseri-los no dispositivo da saúde mental. Os analistas têm que passar da posição de analista como especialista da desidentificação à de analista cidadão.” (Laurent, 1999, p.8)

Tomamos esta indicação de Eric Laurent, como orientação para pensar nossa posição com relação às transformações da ciência e seus efeitos na medicina e no social. Pois, todas essas mudanças no homem, o reducionismo que predomina na maior parte das concepções a respeito da psiquiatria e das neurociências, fortemente vinculados à indústria farmacêutica e biotecnológica, faz com que nosso ímpeto inicial seja justamente assumir a posição da denúncia, recusando o real da ciência.

Mergulhamos em “A ciência e a verdade” de Lacan, percorremos diversos textos de Miller sobre este tema, e percebemos que esta não pode ser a posição da psicanálise de orientação lacaniana. Miller nos mostra que o discurso da ciência, ao buscar a todo custo encontrar o saber no real e suturar a hiância que aloja o sujeito e a verdade, produz pelo seu próprio desdobramento uma reação humanística, que busca negar o saber no real para afirmar que o essencial escapa ao saber científico.

Segundo Miller esta posição reivindica “o gozo da ignorância frente ao saber científico”, e não pode ser a posição da psicanálise lacaniana, já que

“o que Lacan trará, não consiste de modo algum, recusar o saber científico e o saber no real. Porque recusar o real científico, recusar o discurso da ciência é uma via de perdição que abre para todas as manigâncias psis. Não recusar esse saber, admitir que há saber no real, mas ao mesmo tempo, formular que nesse saber há furo, que a sexualidade faz furo nesse saber ” (Miller, 2005 p. 16).

Miller nos convida assim a pensar em uma “nova aliança entre a psicanálise e a ciência” que repousa sobre a não-relação. Uma nova aliança que consiste em uma posição terceira, animada por um desejo de saber inédito, que buscaria se haver com o retorno do sujeito no campo científico: “a psicanálise se situa no ponto onde se trataria de ocupar-se da questão da verdade com os meios da ciência”. (Miller, 1994, p. 20)

Foi neste ponto que fechamos os trabalhos do Núcleo Psicanálise e Medicina em 2015. Fizemos uma investida teórica intensa, mas nossas discussões foram animadas sobretudo por vinhetas clínicas, que é nosso principal interesse. Como vêem foi um ano de muito trabalho, levado por um desejo decidido e por uma transferência de trabalho muito produtiva com os colegas sempre muito participativos. São eles:

Aline Machado Samaoui – psiquiatra do CAPS Ernesto Nazareth
Ana Maria Lima – jornalista, aluna do ICP
Carolina Cunha Ribeiro – psicóloga da Casa da Aŕvore
Cecilia Castro – designer, aluna do ICP
Christine Saturnino – aluna do ICP
Clara Feldman – psicóloga, doudoranda IMS/UERJ
Daniel Levin – residente de psiquiatria HU/UFRJ
Deborah Uhr – psicóloga, supervisora clínico-institucional da AP3.1.
Elisa Aires – psicóloga do INCA
Gustavo Fonseca – psicólogo, doutorando UFF
Lourenço Astua de Moraes – psicólogo, ex-aluno do ICP
Luciana Bacellar – psicóloga do CMS Gávea
Luis Granato – psicólogo, prof. IBMR
Marcio Moreno Barbeito – psiquiatra, diretor do CAPS-AD Centra Rio
Marilia Arreguy – psicóloga, professora do programa de pós-graduação em educação da UFF
Marina Valle – psiquiatra, NASF AP3.2, ex-aluna do ICP
Nelson Barroso – psicólogo, aluno do ICP
Paula Poton – psiquiatra, aluna do ICP
Paulo Edmundo Lopes – psiquiatra
Rodrigo Fraga – psiquiatra, ex-aluno ICP
Rodrigo Lyra – psicólogo, membro da EBP/AMP
Suely Azevedo – psiquiatra supervisora do Programa Designa e do CAPS Herbert de Souza até 2014.
Vitor Lobato – residente de psiquiatria HU/UFRJ

Agradeço a todos pelo excelente trabalho! Que possamos estar juntos de novo em 2016.

Boas Festas!

Adriano Aguiar  (Coordenador do Núcleo de Psicanálise e Medicina)

 

* Partes deste texto foram extraídas de Aguiar, A. O corpo e o risco: a atualidade de “O lugar da psicanálise na medicina”. In: Opção Lacaniana Online, 13, 2014.
Referências:
Lacan, J. (2001[1966]). “O lugar da psicanálise na medicina”. In: Opção Lacaniana – Revista Brasileira Internacional de Psicanálise, n. 32. São Paulo: Edições Eolia.
Laurent, E. O analista cidadão. Revista Curinga (EBP-MG), n13, 1999.
Miller, JA. El pase del psicoanálisis hacia la ciencias: el deseo de saber. In: Quarto, 56, 1994.
————– Apresentação do tema do IX Congresso da Associação Mundial de Psicanálise, 2012. Disponível online.
————– A ex-sistência. Opção Lacaniana 33, 2002.
Bibliografia trabalhada durante o ano:
Pós-estruturalismo e filosofia da diferença (Introdução) (Peters, M.)
Intuições milanezas I e II (Miller)
Em defesa da sociedade (última aula). (Foucault, M.)
A gestão dos riscos. Da antipsiquiatria à pós-psicanálise (introdução). (Castel, R.)
Império (Introdução). (Negri, T. & Hardt,M.)
Saúde mental e ordem pública. (Miller)
O analista cidadão (Laurent)
The Tyranny of Diagnosis: Specific Entities and Individual Experience (Charles Rosenberg)
Politics of life itself (Introdução e cap. 1) (Nikolas Rose)
Beyond Medicalization (Nikolas Rose)
A ciência e a verdade. (Lacan)
Elementos de epistemologia. (Miller)
El pase del psicoanálisis hacia la ciencia. (Miller)
El triángulo de los saberes. (Miller)

Sobre o Intercâmbio de Institutos, 16 de novembro de 2015

No dia 16 de novembro, aconteceu na Seção Rio mais um intercâmbio entre Institutos, que contou com a presença de Ana Lydia Santiago, diretora do Instituto de Psicanálise e Saúde Mental de Minas Gerais, comentando um caso clínico apresentado por Mariana Pucci, participante do núcleo de Psicose e Saúde Mental do Rio e dos Encontros com a Clínica do Autismo, que também acontecem na Seção.

A mesa foi coordenada por Maria Inês Lamy. O caso trazido dizia respeito a um menino autista atendido por Mariana em uma instituição de saúde mental, em um espaço que lança mão de oficinas terapêuticas como dispositivo clínico. O relato dá notícias sobre as posições subjetivas do menino que apareciam no trabalho e os efeitos das intervenções da analista.

Ana Lydia Santiago abriu o debate com comentários e questões importantes acerca da clínica do autismo e da questão diagnóstica. Como pensar, tomando como ponto de partida o caso apresentado, a posição do autista frente ao Outro?

Além disso, Ana Lydia pôde nos transmitir algo sobre a maneira como se organiza e orienta o ensino no Instituto de Minas, apresentando os projetos de sua direção e os efeitos que já se pode recolher.

Thereza De Felice, turma 2015

Notícias do Núcleo de Psicanálise e Medicina

Ao longo deste semestre, e mais especificamente nos últimos encontros, trabalhamos a relação entre a psicanálise e a ciência.

Pensar na relação entre ciência e psicanálise é considerar a divisão do sujeito entre verdade e saber. Divisão constitutiva do sujeito da linguagem elaborada por Lacan em “A ciência e a verdade”.

Muitos objetos surgidos no discurso da ciência foram apropriados por Lacan para estruturar a experiência analítica. Extraídos da matemática e da geometria, podemos apontar, por exemplo, a banda de Moebius e a garrafa de Kevin usados por Lacan como objetos topológicos para operar mudanças estruturais em conceitos antes divididos como avesso e direito, interior e exterior, inconsciente de um lado e linguagem de outro. Estas formas geométricas tornaram pensáveis a correlação e continuidade, o que faz a verdade na psicanálise ter um estatuto diferente da verdade na ciência. O real também figura como diverso para uma e outra.

Miller, em “O passe da psicanálise…”, situa que a psicanálise “joga cartas” com a ciência, e enquanto a ciência tende a um axioma positivo: “há saber no real”; o axioma que orienta a psicanálise lacaniana é “não há relação sexual”, o que faz furo no saber no real.

Miguel Bassols, na conferência “Psicanálise, ciência e real” lembra que Lacan explorou a relação entre a ciência e a psicanálise, que encontra no significante seu “ponto de apoio”.

Psicanálise e ciência dão conta de reais diferentes. A psicanálise, do Real da linguagem (na forma da “não relação”); a ciência procura dar conta do Real que calcula.

Neste percurso de leitura foi possível constatar, como Bassols menciona, que a psicanálise não é sem relação com a ciência do nosso tempo, e que não há ciência sem sujeito do inconsciente.
Link para “Psicanálise, ciência e real”, por Miguel Bassols

Ana Maria Lima e Marina Valle, revisado por Adriano Aguiar

Sobre a apresentação da dissertação Kakon: passagem ao ato e responsabilidade na psicose, de Carlos Costa

No último encontro do Núcleo de Psicanálise e Direito, Carlos apresentou um resumo de sua dissertação.  Sua apresentação sob o título “Kakon: passagem ao ato e responsabilidade na psicose”,  foi dividida em cinco partes: na primeira desenvolveu o fenômeno do kakon à luz da economia libidinal e do mal-estar que o caracteriza desde as primeiras definições na historia da psiquiatria – passando por Esquirol, Guiraud e Cailleux, Clerambault até os comentários de trabalhos mais recentes, como Maleval e Tendlarz. Constituindo um dos núcleos destes desenvolvimentos, a ideia de crime imotivado além da crítica de Lacan a estas leituras, iniciada já em “Agressividade em psicanálise”.

A segunda parte tratou da “Psicose, gozo e mal-estar: o objeto a no bolso”, com destaque para os conceitos de separação, extração do objeto,  além de temporalidade e causalidade. Na quarta parte o autor entrou na questão da “Passagem ao ato: inscrição da diferença”, abordando diversas dimensões da passagem ao ato enquanto operador de inscrição de diferença tais como a subtração de gozo e a emergência do “novo”. Dentre outras passagens sobre a separação do objeto, Carlos destaca a lição “A voz de Javé”, do seminário A angústia, onde o som do chofar “presentifica um objeto… uma separação junto ao corpo”, e uma primeira negativização do objeto subtraído ou “passado ao ato”.

Além da bibliografia, Carlos apresentou também nesta parte, pequenas vinhetas ilustrativas de sua experiência própria com a clínica de psicóticos ou loucos envolvidos em assassinatos. Segundo o autor, depreende-se daí que “aquilo que retorna sobre o louco privado da possibilidade de subjetivação, pode ser tão ou mais prenhe de horror que a experiência mesma”.  Lembra ainda que “na contramão da querela pericial, Maleval complementa… uma conclusão: não basta curar, é preciso elaborar a culpabilidade, encontrar meios para reparar o crime, investir em novos objetivos na existência”.

Na quinta parte, “Rumo à responsabilidade”, Carlos recompõe os argumentos de Lacan desde a década de 50 em seu debate com a ciência contemporânea, assim como o debate da relação entre responsabilidade e punição. Descreve a concepção de assunção lógica ou assentimento subjetivo, afirmando que estas noções implicam “que o psicótico aloje um lugar para o ocorrido”. Destaca que já em Freud encontra-se uma proposta de “um ponto de junção entre terapêutica e ética”, p. ex. em casos de sonhos cruéis que devem ser admitidos como produção própria pelo autor do mesmo.  E ainda, encontra em Lacan, no seminário O sinthome, a seguinte referência sobre o mesmo tema: “Não se é responsável senão na medida de nosso savoir-faire”, a ser lido, segundo ele como o sujeito deve comparecer no inconsciente “colocando algo de si”, (a despeito) de sua determinação inconsciente (e do) formalismo que esta implica. O que pode também ser colocado em termos do “onde isso era, como sujeito, devo advir”.

A discussão teve início com um comentário de Manoel acerca de trabalhos de Celso Rennó, J.-A. Miller,  Pierre Naveau e Maleval. Em especial, a equivalência proposta por este último, entre o kakon, a pulsão de morte freudiana e o objeto a de Lacan, para situar a passagem ao ato. A seguir, afirma que a passagem ao ato só é uma extração de objeto no caso do ato do psicótico. Caso contrário, constitui uma tentativa de simbolização de modo selvagem, não podendo ser considerada uma via terapêutica.  Pergunta como Carlos chegou a isolar o kakon do gozo, ao afirmar que “o kakon não é um problema de gozo…”.

Outras questões se seguiram à de Manoel. Mirta, partindo do encadeamento (passagem ao ato homicida – subtração de gozo – inscrição no real), coloca uma questão sobre o que é que se inscreve nessa passagem ao ato. Pergunta ainda se ele concorda que, considerando que seja possível pensar o id freudiano como um kakon, poder-se-ia considerar também um objeto como uma anterioridade lógica da linguagem – citando a foraclusão do gozo oral milleriana – e que a passagem ao ato tocaria esse puro objeto, um gozo pré-simbólico seria tocado.

Lenita lembra que não é possível desconectar o kakon da passagem ao ato e do crime de gozo. Coloca uma questão na mesma direção das anteriores: “por que você tira dos crimes do gozo os crimes do kakon?”. Comenta o crime das irmãs Papin como resultado da impossibilidade de subjetivar o objeto olhar, e que a extração do objeto teria aplacado o gozo avassalador, sendo por isso, um esforço de elaboração e mostrando que as coordenadas significantes, de diferentes modos, estão sempre presentes na passagem ao ato. Comenta também a questão do novo começo presente em toda passagem ao ato, e que o sujeito que resulta ali jamais será o mesmo.

Seguiu-se então uma discussão sobre as articulações da passagem ao ato no tempo, no real e no simbólico. Uma possível distinção entre uma temporalidade mais aguda da emergência do não simbolizado do fenômeno psicótico, na forma de uma urgência do ato, mais do lado de uma invasão de gozo do que de uma restauração da ordem pela extração do objeto ou destruição do objeto ideal em si próprio e no outro.

Manoel admite a presença constante de coordenadas significantes em toda passagem ao ato, o que não excluiria uma distinção entre uma dimensão bem estruturada pelo delírio de outra dimensão do ato onde se encontra uma franja pequena em vez de um delírio estruturado. Por exemplo, a distinção entre a passagem ao ato no caso Aimeé e no caso Papin mostra que neste último, há um quadro simbólico, mas com pregnância do imaginário e da imagem. Mostra ainda que a dimensão do delírio não é a mais importante nesse ato.

Novas questões surgiram trazendo  a dimensão do ato nos casos de assassinatos em série comparativamente a outros tipos de passagens ao ato. São discutidas as noções que presidem a polaridade crime de gozo x crime de utilidade.

A seguir passamos aos comentários de Carlos sobre as questões levantadas até este ponto, e que foram finalizados com uma rica apresentação de um caso atendido por ele no Hospital de Custódia Heitor Carrilho, ilustrando e esclarecendo as várias questões levantadas ao longo do debate.

Mônica Rolo e Lenita Bentes

Rumo à adolescência

Desde o segundo semestre de 2015, o Curumim se lançou ao trabalho de pesquisa sobre a adolescência, tema de todos os Núcleos de Psicanálise com Crianças da NR Cereda, auxiliado pelo texto de Jacques-Alain Miller que encerra a III Jornada do Instituto da Criança, cujo título é: “Em direção à adolescência”.

Nesse texto Miller retoma as bases desde Freud, sobre a puberdade, o que é ainda vigente, indo até o novo recolhido entre vários autores que nos apontam para os desafios que temos que enfrentar, pois os novos adolescentes são frutos desses desafios.

As bases

A adolescência é uma construção feita de significantes e de real; o real em jogo nela se articula com o apoio dos semblantes. O semblante compreende imaginário e simbólico.

Momentos cruciais:

  • Na puberdade, que é a saída da infância, ocorre o encontro com um objeto de desejo novo: o corpo do Outro.
  • É uma escansão sexual, ou seja, é o tempo de compreender o que foi antecipado na infância, “as predisposições, reconhecíveis desde a infância, à posição feminina ou à masculina”.
  • O ponto de basta e a conclusão no momento em que o desejo se reconfigura pelos ideais. É quando algo de fora, do adulto, se introduz no jovem. Lacan fala da “imisção ou imiscuição” do adulto no adolescente.

O novo

  • A procrastinação: diante dos muitos objetos possíveis através do mundo virtual, o sujeito adia ao infinito o encontro com o impossível.
  • O auto-erotismo no jogo com o saber, sem passar por estratégias com o desejo do Outro: como o conhecimento é acessível através da internet, não há aposta com a bolsa ou a vida, uma vez que a vida está no bolso.
  • Realidade imoral: quando o adolescente precisa largar a mão dos pais para se tornar adulto, muitas vezes não encontra um Outro e, se o encontra, este tem a face tirânica, degradada ou nociva como o Outro do complô.
  • Há um déficit de respeito, os adolescentes dizem: “quero ser respeitado”. Mas quem é o Outro que o respeitaria? Retorna o que Miller chama de demanda vazia: “Como seria bom ser respeitado por alguém que respeitássemos”.
  • E, finalmente, porque as mutações na ordem simbólica são tão agudas, o pai deixou um vazio, a tradição religiosa ou a dos chamados “bons costumes” se perderam, é que sobrou espaço para uma tradição muito demarcada como a islâmica. Sem pai, sem perdão, só vingar, só vencer.

Mas não esqueçamos das três palavras necessárias que nos aponta Lacan em “A Juventude de Gide”: a palavra que interdita, a palavra que protege e a que humaniza (e autoriza) o gozo, o desejo, para enlaçá-los com o amor.

Cleide Maschietto e Isabel Bogéa Borges

Comentários sobre o Eixo 4 da Manhã Clínica das XXIV Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP-RJ

Os trabalhos apresentados na manhã clínica pelo eixo 4 nos convocou a pensar o mal-entendido do corpo “tomado como objeto, artefato ou mecanismo, em suas partes”. Nos encontramos, assim, com os impasses da clínica cotidiana, nos mais diversos dispositivos, o que nos trouxe uma dimensão importante da psicanálise em sua conexão com a cidade. Seja em ONG’s, na Saúde Mental, no Hospital, na Internet, nos esportes, ou até mesmo no consultório particular, a discussão suscitada pelos trabalhos apresentados circulou pelo que há de mais íntimo à prática psicanalítica: o encontro.

O que ocorre quando um sujeito encontra um analista? Ou ainda melhor, o que ocorre quando um analista supõe um sujeito? Haveria um mal-entendido também aí? Onde a psicanálise, encarnada pela presença de um analista convoca um sujeito a advir onde ele já não é mais quase suposto? Seja por demanda própria ou pela contingência institucional?

Os trabalhos apresentados apontaram as encruzilhadas institucionais em suas dimensões de lugares de resposta, e muitas vezes, resposta social à problemas tipicamente clínicos,  como também apontaram para a questão da disponibilidade do analista em ouvir, mas não só. Pois sabemos que para além da demanda ha desejo.

Esses corpos adoecidos ou doloridos, atletas ou obesos, infantis, toxicômanos, estão mal-entendidos nisso que Laurent chamou de “delírio da normalidade”. Nomeação que nos remete às urgências, usos e ideais que irrompem à partir desse corpo e que o atravessam e o marcam. Corpo que vêm à clínica, falado, estranhado, condenado, questionado, numa época em que, franqueados pelo discurso médico/científico, os imperativos superegóicos parecem prevalecer na ordem do dia, apontando toda a sorte de condutas e soluções que implicam diretamente esse mesmo corpo.

A presença do analista, no avesso dessa maré, vem apontar que há furo, ou ainda, que é preciso haver furo nessa produção maniaca de saberes ideais. Ali onde busca-se evitar, encobrir, solucionar, o mal-entendido do corpo, o analista o escuta, sublinha, o põe a trabalho numa lógica que é outra.

Se propõe a fazer coisas num movimento oposto ao da mania contemporânea, se dá ao artesanato de fazer a coisa psicanalítica insistir.

Como apontou a mesa – Ressonâncias do Corpo Hoje – o analista está na cidade e trabalha com essa dimensão do invisível, do impossível, que não cessa de se inscrever. ‘É convocado a um fazer, que dialogue com os discursos de nossa época’, e a recolher no um a um da clínica seus efeitos e desdobramentos.

Andrea Marcolan (Fundamental 2014) e Maira Dominato Rossi (Fundamental 2014)

Comentários sobre o Eixo 2 da Manhã Clínica das XXIV Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP-RJ

Os trabalhos apresentados no Eixo 2 da manhã clínica nos permitiram tocar importantes questões em torno dos Usos do corpo. O que chega à clínica hoje se tornou sensível nas três mesas que compuseram o eixo: que uso fazer desse corpo, muitas vezes estranho, monstruoso, sempre submetido ao movimento pulsional, que não vem com manual de instruções? Como se servir dele? Seja na montagem de um corpo de mulher, no funcionamento de um corpo de homem ou mesmo nos casos em que esses limites não estão em jogo, observamos sujeitos às voltas com suas tentativas de encontrar recursos para lidar com o mal-entendido. O que pode a psicanálise operar nesse ponto?

Nas saídas pela neurose o mal-entendido do corpo aparece como radicalidade na impossibilidade da relação. Há sempre Outro que guardaria a verdade sobre o uso correto do corpo e da satisfação do parceiro, como se a concordância entre identidade e imagem corporal se passasse pela via pedagógica. Para tanto, vemos tentativas frustradas de reunir pedaços dos corpos de outros e, com um desenho ideal, fazer existir a relação sexual. Aqui, a fala em análise pode fazer furo nessa crença, pausa na busca desenfreada pelo ideal e pela completude.

Nas psicoses, por outro lado, onde os pontos de apoio e referência são escassos, é preciso boa dose de criatividade para sustentar-se no discurso. Em mundos onde tudo escapa ou onde tudo é cheio, sem furos, encontramos saídas que podem afastar do real da relação, mas que permitem a construção de semblantes para fazer circular estes corpos. O analista, por vezes, poderá servir de apoio com seu próprio corpo: vimos propostas de parceria onde a voz ou o olhar podem operar como molduras para os corpos destes sujeitos, recursos simbólicos encontrados para moderar a angústia.

De todo modo, no trabalho de análise, seja no sentido de operar cortes ou amarrações, é possível inventar formas de sustentar-se frente ao olhar do Outro para valer-se daquilo que, no corpo, escapa. “Nunca se é aquilo que se tem” -, nos disse Marina Recalde em sua conferência na sexta-feira – mas para que esse corpo não se apresente totalmente à deriva, à revelia do sujeito, é importante poder modular “algo do corpo que não se deixa capturar”. Nos casos clínicos apresentados pudemos ler o trabalho dos analistas neste sentido. Cuidadosamente comentados, os casos convergiram para a discussão sobre a importância da hipótese diagnóstica. Concluiu-se que é essencial sustentar essa discussão e seus impasses, sem renunciar a ela, pois a direção do tratamento não está desarticulada dos usos do corpo que poderão surgir em cada caso.

Marina Sereno (Turma 2015)

Comentários sobre o Eixo 1 da Manhã Clínica das XXIV Jornadas Clínicas da EBP-Rio e do ICP-RJ

A primeira mesa, com o título ‘O ilegível do sintoma e a opacidade do gozo’, apresenta questões da clínica nas dimensões da voz, som, escrita e leitura. Voz/som que provoca acontecimento de corpo, o mal estar do corpo, um corpo que padece além da dimensão biológica. Escrita/leitura que aparece como endereçamento possível à inscrição subjetiva. O que convoca o analista às questões paradoxais da sua formação: como ler o sinthoma e identificar o lugar de gozo no corpo? Como avançar do objeto a ao sinthoma, para que apareça a alteridade radical, aquilo que não se lê, o que não faz significante na cadeia?

O tema desta mesa convoca a pensar: O que muda na ética da psicanálise de hoje? Quais são os limites da prática? A verdade mentirosa e o gozo, o avanço dos conceitos e sua inscrição em cada caso, oferecendo a possibilidade de leituras ao analista e analisando. A escrita como expressão do que se lê e o que se (in)escreve numa análise. A interrupção do analista opera, num determinado momento da análise, e convoca a pensar sobre a interpretação hoje. Entender os deslocamentos do sentido para o gozo, como também pensar se a fantasia mantém a sua vigência, se pode servir como ferramenta para as neuroses. Se sim, como isso se isso dá? A verdade e o gozo, hoje, apresenta o deslocamento do conceito de inconsciente (Freud) para o Falaser (Lacan) – da verdade ao gozo.

A segunda mesa ‘um olhar sobre o narcisismo’ apresenta o singular modo de viver o mal entendido de um corpo. Como um adolescente pode se virar com o seu corpo em análise? Do ideal do eu ao eu ideal e o narcisismo. O que se configura do corpo na adolescência parece ser uma entrada do adulto na criança. Miller no seu livro em direção à adolescência, diz: o adolescente nega o real para viver os signos. E na velhice há um narcisismo terciário? Envelhecer doí, a imagem especular que convoca o ideal do eu e eu ideal. O real, imaginário e simbólico de um corpo que envelhece. Cita Clarice Lispector, ‘em que espelho ficou o rosto?’. O resto e a dor que traduz esse pulsar que está prestes a cessar. A analista interroga-se sobre a possibilidade do narcisismo terciário, mas o inconsciente, como diz Freud, é infantil. E também não acontece a morte de um corpo infantil na adolescência?

Através do filme ‘O abutre’ nas imagens que apresentam semblantes de corpos, imagens de traços traumáticos, a pregnância de um olhar que vê os fragmentos de um corpo e indaga o que é ter um corpo. Do espetáculo do horror a indagação do que não se vê. O corpo revisitado, a mídia e o falaser, faz indagar sobre o lugar do gozo do corpo na sociedade atual.

Pensar o corpo seja nas imagens despedaçadas, apresentadas no filme ‘abutre’ – do gozo do um que não incluí o outro, mas que produz efeitos naquele que vê as imagens. Seja no corpo da adolescência, um tempo de reafirmar a escolha sexual, dar conta das transformações de um corpo que provoca o desconhecido – Quem é esse adulto em mim? Uma demanda do que pode ou não ser formulado do ilimitado do amor. Seja na velhice que urge o anunciado da finitude de um corpo, isso também se dá noutros tempos da vida? As pessoas envelhecem, mas o sujeito envelhece? A dor de existir nos vários tempos da vida, a dor do dente cabe dentro do orifício – um olhar sobre o narcisismo. Ir além, entre doer e doar há uma escolha do sujeito. Já temos muito que se haver com o narcisismo primário e secundário, independente da idade cronológica, como diz Freud, o inconsciente é infantil. O corpo como o lugar do trauma, sempre escapa. A aposta do analista no tratamento do que excede no gozo está para além do significante ser adolescente ou ser velho, traduz o diferente lugar da psicanalise que não obtura como o geriatra/pediatra, deixando aberto o buraco, a ferida que doí e pulsa. A caverna psicológica de cada um e suas marcas no corpo, a intervenção do analista padece com a sustentação do que é possível em cada tempo de analise.

A terceira mesa revela os modos de tratamento do gozo na transferência. A obra de Pina Bausch como uma possibilidade de um corpo na psicose que evoca o caso Joyce (Lacan) de um enlaçamento na produção subjetiva. Como o mistério da libra de carne, extração do objeto do mundo como resposta subjetiva na construção do fantasma marca cada corpo? O percurso que o trabalho chega quando se pensa o corpo na psicose – Como Joyce e Pina se servem da arte para depois achar o saber que recolhe? Certas coisas se dizem em palavras, outras só podem ser sentidas ou por movimentos como a dança ou escritas de fragmentos vivos. Tem certas coisas que não sabemos como ir e aí dançamos, escrevemos, pintamos… Injetar a vida na vida!

Nunca me esquecerei desse acontecimento

Na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

Tinha uma pedra no meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra.”

Carlos Drummond de Andrade ·

O tempo é lógico e não cronológico, já dizia Lacan. As diferentes durações em análise, algumas bem recentes e outras bem longas, se inscrevem em recortes/leituras possíveis do analista. O desejo e aposta na travessia e o seu limite na fantasia. Qual o tempo de final de analise? O curioso quando o sujeito fala, insiste, não falta e repete a pergunta em cada encontro amoroso – Já está bom? Quem permite o final de um percurso? Do primeiro Freud ao último Lacan e leituras de Miller e outros, o lugar do analista para cada sujeito fazer a sua travessia. Os cuidados da clínica atual, um acontecimento de corpo e gozo, só sendo possível na condição de transferência do suposto saber num tempo que não é cronológico é lógico de cada um.

A convocação do nome do pai e a cisão, um drama marcado pelo S1. Uma experiência vivida, também por Lacan, na cisão da escola EBP com a AMP e representada pelo ‘Lago do Cisne’. No final a morte anunciada é apresentada na fantasia e no real, se constrói numa travessia que leva tempo, o tempo de cada um. A função da dança, a arte no resto, aquilo que falta e insiste em cada encontro com o desencontro. O corpo revisitado permite o delírio, o sinthoma é um acontecimento de corpo, a corporificação da entrada da linguagem no corpo.

O sujeito falaser e sua fuga errante num gozo sem sentido, um corpo e o seu lugar de dor na busca de sentidos, as escolhas de objeto de amor, a construção de um corpo que se apresenta estranho e provoca sensações fora de controle. O corpo seja na adolescência ou velhice, e suas marcas de um acontecimento de corpo que insiste e padece na imagem especular do ideal do eu e eu ideal. A libido e os objetos perdidos à urgência de uma vida que se esvai nas imagens de corpos sem vida, num gozo que se reproduz num excesso em que cada um há que chegar à dose certa do seu resto.

Ana Cristina Aguiar Vilhena de Carvalho (Turma 2014)

* As menções que pudessem identificar os casos clínicos foram retiradas em nome do sigilo dos pacientes.

Ressonâncias da conferência de Marina Recalde: O mal entendido do corpo

Marina cita Miller em Peças Soltas ao falar da dimensão real do corpo como mais além do significante, ou em outras palavras, o corpo falante enquanto inconsciente é o real. Entretanto, a problemática que persiste na psicanálise vai justamente ao encontro dessa afirmação: o que pode ganhar, afinal, estatuto de significante ou não? Unido a isso e ainda como ecos do Enapol, Marina ratifica que a questão de como atingir o gozo com a palavra parece assombrar insistentemente os analistas, uma vez que há uma hiância inalcançável entre o significante e o que escapa dele como gozo.

Aponta ainda que há uma disjunção do significante e gozo, já que este prescinde do Outro. Ora, se o percurso de uma análise vai do corpo falado pelo Outro (sintoma) para o falar com o corpo (sinthoma) e a clínica atual nos mostra uma dificuldade de dirigir-se ao Outro, a questão do que é possível ao analista se faz presente. Marina nos indica que os analistas já estão sabendo-fazer alguma coisa diante disso, porém é preciso dizê-lo melhor, ou transmiti-lo melhor, se podemos assim articular, e faríamos então, tal como deve ser, a teorização da prática e não a prática da teoria.

Com isso, Marina aposta de que o encontro com um analista tem efeitos no corpo e na subjetividade elevada a uma “dignidade subjetiva”. Uma questão ficou para mim: se é preciso localizar o falante do corpo, que não é discurso, e só temos a fala do analisante, como pode o analista escutá-lo?

Heloisa Shimabukuro (Turma 2013)

Comentário sobre a mesa redonda: A obra prescinde do artista

O que seria uma mesa de discussão se torna uma instigante meia roda de conversas e questionamentos com o tema “A obra prescinde do artista”. Fomos apresentados a obras de Adriana Varejão, iniciando, assim, uma discussão acerca das articulações entre psicanálise e arte. A própria construção da identidade visual da jornada traz “Trois petites morts”, três muros brancos e limpos invadidos por cortes e feridas. Feridas estas que aparecem nas demais obras acompanhadas de manchas de sangue ou representadas por pedaços de carne, vísceras à mostra. O furo, no que estava coberto e velado por um muro, um revestimento de azulejos retos, brancos e limpos, nos remete à pele enquanto algo que vela o vivo e real de nosso próprio corpo. Ana Lucia Holck fala do azulejo branco como a pureza que reveste o vivo, representado pelas feridas.

Ao contrastar horror e belo através de sua arte, Varejão nos causa. Como disse Andréa Vilanova: “fratura nosso olhar e perturba nossas defesas”. A conversa girou em torno da impossibilidade de uma obra de arte representar o real, ainda que o possa presentificar em alguma medida. A obra que resiste a ser capturada por uma fotografia, apesar de não representar o real, é capaz de ressoar algo em seu espectador no momento do encontro. É certo que este encontro é marcado por algo de opaco, um infinito que os olhos não podem captar, mas este próprio inalcançável seria o mal-entendido que nos acompanha sempre em nossa jornada. Isso porque a arte toca um ponto de desconhecido em nós mesmos que remete ao desejo, suscita algo de um impossível de ser colocado em palavras.

As partes destruídas de um muro dando vazão às vísceras de um corpo vivo, corpo despedaçado e fragmentado. Pedaços de carne colocados em belas pinturas clássicas. A invasão de uma carne sem sujeito, carne desvelada pela pele. Manoel Motta traz a possibilidade de a arte contemporânea denunciar a pintura enquanto véu, dar fim a um espetáculo inaugurando na arte, porque não, uma nova ética e uma nova estética. Para Cristina Duba, esse movimento de desconstrução da arte contemporânea pode estar ligado a uma função de apaziguamento, pois, ao se deixar ferir, a obra de arte dá lugar ao furo, ao sem sentido, à opacidade do real.

Os muros então, que teriam a função de, assim como cortinas, servir de véu separando dentro e fora, o que está na frente e o que está por trás, são denunciados como puro semblante na medida em que, citando Stella Jimenez: “o horror não está nem dentro e nem fora, está no espaço impossível, entre as duas pedras do azulejo, como se fosse entre a pele e a carne”. Cabe então a nós, espectadores, nos deixarmos causar, ensinar e surpreender pela arte que se abre ao lugar do enigma e do espanto, assim como o faz a psicanálise.

Bárbara de Queiroz Sousa (Turma 2015)

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